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Última parada: Estocolmo!

14 de junho de 2012




Saindo de Kiruna, fui em apenas duas caronas até o meu destino. Apesar da oferta do motorista de minha última carona, preferi caminhar até a casa da Lollo, no que me parecia uma caminhada de não mais de dez minutos que no final foram quase 40 minutos caminhando em uma estrada deserta e cheia de neve.

A chave me aguardava, deixada escondida pela Lollo que estava trabalhando e só estaria de volta no dia seguinte. Não muito depois chegou o Tomas, marido da Lollo e que não estava presente quando estive lá no verão, comemos um frango delicioso que havia sido deixado pela Lollo antes de sair. Depois do jantar sauna e mergulho na neve, o problema é que a neve estava compacta demais e fiquei com mão e joelho ralados.

No dia seguinte a Lollo estava de volta com suas receitas fantásticas e seu calor de mãe recebendo-me como um filho que não via há muito tempo. Um pouco mais tarde o Tomas levou-me para uma volta de snowmobile, que desta vez se mostrou muito mais fácil do que a minha tentativa anterior na Noruega, era uma máquina muito mais nova e o terreno muito menos acidentado, o que fazia a velocidade ser tremenda.

Snowmobile

Caminhada com o cão

Churrasco na neve

Em outro dia, o Tomas levou-me para dar alguns tiros com o seu pequeno arsenal. Desta vez eram tiros com um rifle de verdade, onde pude sentir um coice de verdade. Fiz alguns tiros ao alvo, e não fui de todo mal, considerando que o alvo estava a mais de cem metros de distância.

Meu alvo

Em outro dia fomos encontrar a Anny e sua família, era deles o urso que ficava no porão dentro do freezer, um lembrete de que eu estava em uma terra de caçadores. Foi ótimo revê-los e contar tudo o que aconteceu desde que passei por lá no verão. Na saída levei um nacho de carne de alce seca que levaria em minha jornada.

Uma homenagem

No dia seguinte, fomos à Finlândia e ao hotel de gelo, um lugar construído todo ano com a promessa de derretimento e reconstrução no próximo inverno, assim, a cada ano, havia um novo hotel, com esculturas em gelo e paredes de neve. Deitar naqueles quartos me fez perguntar que tipo de casal escolhe passar a noite num lugar como aquele, onde a temperatura interna chegava aos 3 graus negativos. Do lado de fora do hotel, a paisagem era ainda mais intimidadora, com um mar congelado até se perder de vista no horizonte.




Alguém se habilita a uma noitada num lugar assim?


Caminhada no mar congelado



Segui viagem no dia seguinte com uma carona da Lollo até a próxima grande cidade, Luleå de onde, no próximo viaduto continuei de caronas com destino a Umeå, meu destino daquele dia, que atingi com duas caronas.

Naquela noite fiquei hospedado na casa da Anna, uma doutoranda de Latvia, com a qual depois de uma rápida conversa, fui ao ensaio de sua banda, que na verdade era não mais do que uma reunião de amigos na qual mesmo eu com minhas parcas habilidades musicais me destaquei. Na volta, avistamos no céu uma atividade tremenda de auroras boreais, na verdade as mais fortes, mais coloridas e mais impressionantes, gostaria que houvesse melhores condições para que eu pudesse tirar uma foto daquele espetáculo. Ainda naquela noite ficamos de papo, mostrando um para outro algumas músicas que lembrávamos, ela tinha um vasto repertório de músicas russas, muito alegres e divertidas.



Segui viagem novamente, agora com destino a Sundsvall, mas para isso eu precisava de um bom ponto para pedir caronas, o que demorou muito a ser encontrado, depois de uma longuíssima caminhada. O ponto que eu acabei encontrando era uma droga, porém para a minha surpresa não demorou dois minutos e pela segunda vez em minha viagem (a primeira havia sido alguns dias antes) parou um caminhãozão e segui de carona por todos os trezentos e tantos quilômetros até Sundsvall.

No caminho um tremenda surpresa, em Umeå, havia mais de um metro de neve (que é um grande problema se vc precisa caminhar e afundar até a coxa) mas já a uns 150 quilômetros ao sul, já se via a grama e um pouco mais, não havia mais nenhuma neve. Ou seja, em poucas dezenas de quilômetros a paisagem mudou completamente, apenas para me lembrar que eu havia deixado o ártico.

Já em Sundsvall, enquanto aguardava notícias do meu anfitrião, resolvi comer um prato de comida Tailandesa de um restaurante ambulante, e dar uma volta pela cidade, que tinha todo o charme das típicas cidades Suecas, com seus telhados em ângulos agudos e suas paredes em tijolos.


O Zimon, meu anfitrião era um cara um tanto reservado e talvez até um pouco tímido, por outro lado, apesar de ter pouquíssimo espaço em seu quarto, recebeu-me com um grande sorriso e imensa hospitalidade. Até se aventurou na cozinha fazendo uma mistura de terrível aspecto, mas de sabor delicioso. No dia seguinte até rolou um churrasco, com cachorros-quentes e “cerveja”, que com 2,8% de álcool não é uma cerveja a ser levada a sério, bizarrices da Suécia.



Neste mesmo dia, acabei encontrando uma garota do CouchSurfing que não pode aceitar a minha requisição mas que se dispôs a mostrar-me a cidade. Era uma garota muito sorridente e cheia de energia. Tinha muitas viagens no currículo e este foi o nosso principal assunto (o que, infelizmente, tem sido uma constante na maioria das conversas que tenho). Finalizamos o passeio com alguns sushis em um restaurante local (muito bom, aliás).

No dia seguinte, segui viagem. Era a minha última jornada até chegar em Estocolmo. Mais uma vez uma longa caminhada, mas desta vez, achei o ponto perfeito! Uma rotatória em obras, faziam os carros passarem por mim a baixíssima velocidade. Acabou parando um senhor, preocupado com o meu bem estar e segurança. Levou-me por algumas centenas de quilômetros até sua cidade, que era linda, tentou algumas opções para não ter que me colocar na estrada, mas no final não teve jeito. Voltei à estrada, e o ponto era terrível, péssimo. A estrada era estreita e os carros passavam a muitos quilômetros por hora. Não me restava outra saída senão caminhar.

Caminhei, caminhei, caminhei. A estrada continuava sempre a mesma, pista única até se perder de vista, pensei que ali seria o dia que eu ficaria no meio da estrada... Mas depois de uns seis quilômetros e mais de uma hora de caminhada, avistei finalmente um lugar de onde eu poderia continuar pedindo caronas. Segui caminhando quando vejo um carro parando por lá. Que estranho, será que era para mim... Levou mais uns dois minutos até que eu o alcançasse, ao aproximar-me da janela, era uma mulher, muito bonitona dizendo que havia me visto na saída de Sundsvall e que não podia parar na hora, e por isso, decidiu parar agora, ia até Gävle, melhor que isso, só se me deixasse em Estocolmo.

Seguimos viagem, ela era uma vendedora de brindes promocionais, trocamos várias experiências da época que eu trabalhava em marketing e comprava produtos de vendedoras como ela. Fiquei muito admirado pelo fato de que são pouquíssimas mulheres com a coragem de dar uma carona, ainda mais para um homem, ela disse-me que fizera muito disso em sua juventude.

Ela me deixou na cidade de Gävle, e após me posicionar em um lugar com boas chances parou um carro e segui viagem. Esse era um jovem que iria até Uppsala voltando para casa após uma viagem de trabalho, a conversa se desenvolveu tão bem que ele acabou esticando o caminho em mais uns 50 quilômetros para me deixar em Estocolmo, me faltam palavras para agradecer pessoas como ele.
Em Estocolmo, evitei as turistices, já conhecia bem aquela cidade do verão e era cara demais para se mostrar particularmente interessante novamente. Meus pensamentos já estavam em meu próximo destino e ainda faltavam dois dias para eu embarcar.

Fiquei hospedado na casa de uma dupla meio estranha. Ela era alguém que falava pouquíssimo e fazia pouco para ser simpática, acompanhada de um amigo de ainda menos palavras, e estes seriam os meus anfitriões. Chegamos à casa, havia um outro casal do CouchSurfing que seriam os meus companheiros naquela casa enorme. Deixaram-nos lá, certificaram-se que estávamos confortáveis e não os vimos mais até a noite seguinte, quando houve uma festa cheia de gente esquisita.

Neste meio tempo, fui encontrar com a Jenna, minha estonteante amiga que parecia que não via há muitos anos, ainda que a tenha visto no verão. Ela e o Linus, seu namorado, são pessoas fantásticas com asquais todo o tempo do mundo não é suficiente para fazer com que sejam cansativos.

Lindos!!

Desta bela companhia despedi-me para enfrentar aquelas festa cheia de gente esquisita que acontecia na sala onde eu dormi na noite anterior. Eu, como não podia dormir e nem estava a fim de beber fiquei tentando me enturmar sem grandes sucessos. Sem problemas, arrumei um cantinho escuro em um dos quartos e tentei dormir por algumas poucas horas, pois naquela noite eu seguiria para o meu próximo, tão aguardado, porém não tão novo destino: Portugal!

De carona no inverno ártico

11 de junho de 2012





Peço desculpa aos leitores pela longa pausa, não foi sem uma boa razão que, aliás, fica para os próximos posts, visto que ainda falta contar sobre a minha ida a Estocolmo.

Já estava muito mais do que na hora de enfrentar a estrada novamente, ficar parado por muito tempo me fez sentir certa urgência em cair na estrada, meu destino final seria Estocolmo, mas ainda havia um longo caminho até lá. E, para compensar por todo esse período de abstinência, eu queria uma overdose e escolhi por caronas como meio de ir até Estocolmo.

Despedi-me dos meus queridos amigos e anfitriões, que tão gentilmente me hospedaram por todo esse tempo. Deu-me uma dor no coração por deixá-los, mas esse sentimento de despedida é uma constante que eu já não sentia havia algum tempo. Ganhei uma carona do Tore até uma bifurcação no caminho para Narvik.

A paisagem era para lá de intimidadora, com mais de um metro de neve nas bordas da estrada, porém, olhando de uma forma mais ampla, sentirei saudades daquela linda paisagem de inverno e aquele fjord com o mar congelado, seria uma última imagem que eu guardaria com carinho da Noruega.  Difícil foi encontrar um ponto seco para deixar a minha bagagem, já estávamos entrando na primavera e a neve começava a derreter dando a si mesma um aspecto sujo e lamacento.


Minha primeira carona foi um fazendeiro que ia até a próxima cidade segundo ele a 7 km, mas que eram na verdade 70 km, os suecos e noruegueses como sempre se deslocam a grandes distâncias costumam cortar um zero em uma unidade de distância local, enfim, excelente.

Ele me deixou próximo a um posto de manutenção de Snowmobiles, assim, era comum vê-los passando rápido para lá e para cá. Fiquei lá, pedindo caronas quando para a minha total surpresa, parou um caminhãozão enorme, destes biarticulados, ele ia até Narvik e me deixaria no caminho, mas antes, precisávamos parar para uma entrega.

No local de entrega, haviam inúmeros veículos militares abastecendo, eles teriam ainda uma longa viagem pela frente com destino à Suécia, estavam ali fazendo exercícios militares, no qual havia ocorrido poucos dias antes um acidente de avião nas montanhas a que me dirigia.


Segui viagem com o caminhoneiro que me deixou na estrada para a Suécia, caminhei um pouco mais e me pus logo depois da entrada em um ponto em que eu poderia ser facilmente visto. Os caminhões militares começaram a passar um atrás do outro, eu não me intimidei e pedi carona para eles também, mas como eu já imaginava ninguém parou, apenas buzinavam em sinal de aprovação e bom humor. Não muito depois consegui uma carona, um guia de montanhismo e esqui que segui até um resort entre as montanhas de Abisko. Ao chegarmos ao destino, havia ali perto um helicóptero pronto para levantar vôo, ele disse-me que se houvesse tempo ele poderia me conseguir uma carona no helicóptero, o problema é que seria de volta para Narvik, como se eu ligasse!

Fui deixado na estrada, no alto da montanha, cheio de neve. Esse foi sem dúvida o momento mais difícil da minha carreira como caroneiro, estava MUITO, MUITO frio, descobri depois que passava dos -9°C, e pior fiquei ali parado por algumas boas horas, pelo menos duas. Os caminhões militares (que havíamos ultrapassado na carona anterior) passaram novamente, os motoristas foram à loucura, buzinaram muito e fizeram uma grande festa por ver aquele caroneiro com a bandeira do Brasil mais uma vez na mesma estrada.



Finalmente um carro parou para me salvar daquela friaca toda, era um alemão que mal falava inglês mas era simpático até demais, até achei que fosse gay e que parou com algumas segundas intenções, pena para ele que essa não é a minha praia, mas foi ótimo pelo fato de ele ter desviado pelo menos uns 200km do caminho para me deixar em Kiruna.

Lá cheguei e fui hospedado em uma casa de estudantes, eram três, mexicano, nepalês e português, muito divertidos e que me levaram para uma partida de futebol com outros estudantes. Muito mal que o fato de eu ser brasileiro eleva a expectativa deles com relação às minhas habilidades inexistentes no futebol.

No dia seguinte, estava pronto para seguir viagem, já com a mochila nas costas quando um rapaz na janela após falarmos rapidamente me oferece uma carona até a saída da cidade (o que me economizou uma graaaaande caminhada), antes disso uma cerveja e um bate-papo rápido. Ele, aliás, era do CouchSurfing também.

Fiquei na estrada, desta vez a paisagem não era tão ruim assim, a temperatura estava até agradável (para os padrões do dia anterior) e após não mais do que uma hora parou uma van vermelha com uma mulher super sorridente e feliz, louca para me dar uma carona, mas ela só iria por 2 km, declinei, afinal, o ponto em que eu estava era muito bom. Mais alguns minutos e ganhei uma carona por uns 150 km com um senhor muito simpático e falador. A segunda carona do dia foi com um fiscal da empresa de trens da Suécia e que me deu uma carona até o meu destino final: Lansjärv,  local de residência da Ann-Louise e do Tomas que já me hospedaram no verão (post aqui) e que encontrei na Turquia (post aqui).

Meus dias em Lansjärv e a continuação da viagem até Estocolmo ficam para o próximo post.

Rumo ao Norte

14 de março de 2012



Cheguei em Varberg após algumas horas de Balsa. Estava bastante frio e havia ainda bastante neve daquele lado (ao que parece não nevara na Dinamarca). Após alguns minutos fui resgatado daquela noite fria pelo Jim e pela Bella, um casal muito legal que me acolheria naquela noite.

Antes de seguirmos para sua casa, os acompanhei ao supermercado, um lugar que é sempre interessante ir, pode se aprender muito sobre a cultura local vendo-os fazer compras.

Em casa, ficamos de papo por várias horas e também durante um delicioso jantar feito pela Bella. Descobri que o Jim era engenheiro de segurança em uma usina nuclear, usou o Homer Simpson para exemplificar.

Já no dia seguinte segui viagem para Oslo, mas aproveitei a parada obrigatória em Gothemburg para dar uma passada no Shopping e encontrar a Sofie em mais um protesto, que ficou muito, muito feliz em me ver, é impressionante a energia positiva que ela tem. Infelizmente nosso encontro seria bastante curto, pois meu ônibus com destino a Oslo sairia em alguns minutos, deu apenas tempo de dar um abraço sintetizar as novidades e nos despedir, antes de seguir para a rodoviária deu tempo para mais um par de Semlas.

Chegando em Oslo, segui para a casa da Ingvild, do CouchSurfing. Deu um pouco de trabalho para desvendar o mistério da numeração das ruas da Noruega, mas chegando lá: Uau, que casa linda, parecia que tinha saído diretamente de um desses contos infantis. Com um jardim todo branco pelos 30 cm de neve, árvores desfolhadas pelo inverno e pinheiros enormes tudo isso sob a penumbra de uma iluminação ineficaz, porém charmosa.

A foto de dia ficou uma merda

Chegando lá, fui recebido pela Ingvild, um tipo raro de pessoa. A primeira coisa que chama a atenção nela é a sua altura, ela era maior do que eu. Em segundo lugar sua atitude frente à vida: uma batalhadora, aventureira e uma pessoa feliz. Suas viagens são nada menos do que inspiradoras, ela já esteve nos cinco continentes e não foi apenas por uma pequena temporada. Junto dela, estava uma amiga Sueca, muito divertida e que tinha uma conexão especial com a Ingvild que as deixavam na mesma sintonia.

Ingvild no Malawi (roubei a foto dela no CouchSurfing)

Rolou uma festa com o pessoal do CouchSurfing que morava em Oslo, conheci desta forma um monte de gente legal e inspiradora que nos acompanharam para uma noite de festa. Começamos em um Bar no centro de Oslo, e nosso grupo se separou, algumas das pessoas eram menores de 18 anos e não puderam entrar.

A diversão aumentava conforme subia o grau alcoólico da Ingvild e eu, como seu hóspede, tive que tomar a posição de seu guardião, tentando me divertir enquanto mantinha um olho sempre na direção dela. Fomos a um bar brasileiro, muita animação e músicas que eu conhecia, com alguns brasileiros inclusive para matar a saudade do meu português.

A amiga sueca da Ingvild desapareceu acompanhada por um antigo “amigo”, mas eu e a Ingvild não estávamos sós. O tempo foi passando, e com isso chegou a hora de ir. Paramos primeiro em uma loja de departamento, a Ingvild resolveu levar algumas pizzas congeladas, mas se recusava a pagá-las, ela queria roubá-las! Eu na convenci do contrário, e seguimos o caminho. Apareceu um cara, conhecido dos outros, com uma atitude muito esquisita em cima da Ingvild, veio abraçando-a, mesmo que sua altura mal chegava aos ombros dela, tentando convencê-la de ir com ele para a casa dele. Ela não estava em condições de tomar uma decisão daquelas, e a reação dela e dos outros não parecia sugerir que ela estivesse interessada, e como o cara estava muito esquisito e agressivo em cima dela, eu, como seu guardião acidental, resolvi intervir puxando-o para longe dela. Ele protestou agressivo, mas peitei-o dizendo: Ela NÃO vai contigo! Na hora pensei que ia rolar uma briga, mas ele foi embora. Acho que o intimidei com a minha barba Viking.

Antes de ir para casa, a Ingvild apresentou evidente melhora após um lanche no McDonalds. Tomamos um taxi cum um amigo que também ficaria hospedado conosco, ficamos os três de papo bebendo água até não haver qualquer evidência de embriaguez entre nós.

Fiquei mais dois dias nos quais não fiz muito, exceto por uma caminhada em Oslo que não teve nada de especial, exceto por um Kebab e uma caminhada no cemitério perto da casa da Ingvild, uma incrível paisagem que me fazia sentir em um mundo em preto e branco. Perdi também a oportunidade de ter ido esquiar com ela, já que perdi sua ligação no celular que ficou em casa.



Na manhã do dia 31 saí de casa cedo, e quase perdi o meu avião, uma vez que pelos cálculos da Ingvild, a viagem até o aeroporto levaria apenas uma hora, mas isso considerando alguém que sabia aonde ir, o que não era exatamente o meu caso, desta forma tive que correr e muito para pegar o avião nos últimos minutos. Destino: Harstad, 200 km acima do círculo polar ártico.

Os estudantes de Aarhus

13 de março de 2012



Quando saí de sua casa após o natal na Alemanha, eu não esperava encontrar mais o Fred nesta viagem. Recebi, porém  uma mensagem dele falando que estaria de volta a Aarhus dali a dois dias, eu estava ainda em Gothemburg na Suécia, há poucas horas dali, dizer não já seria difícil, mas considerando ainda que se tratava de uma cidade universitária com estudantes de todo o mundo, bem, dizer não se tornou impossível.

A viagem de barco durou pouco mais de 4 horas, cheguei à cidade de Grenå em um porto que ficava para lá de isolado, assim, a melhor opção seria seguir de caronas. Coloquei-me na estrada e esquema padrão, bandeira do Brasil, plaquinha, polegar para cima e sorriso no rosto, mal deu tempo de montar todo este esquema e já parou um caminhão. Dentro um simpático senhor que estava transportando equipamentos eletrônicos do porto até um antigo depósito militar, depois seguiria até Aarhus, onde morava e também o meu destino.

O depósito, que outrora foi um hangar para aviões, parecia coisa de filme. A começar pela entrada, uma porta pesada feita de concreto, provavelmente resistente a até bombas atômicas, foi aberta pelo simpático velhinho, que estava super animado pela minha companhia. A porta ao ser aberta virava o chão por onde o caminhão passava, uma coisa realmente impressionante.

Feito o desembarque, seguimos viagem, disse o endereço à ele, e ele acabou me deixando na porta da casa do Fred, ao nos despedirmos, ele me deu umas dez caixinhas de uma bala com sabor esquisito extremamente comum nos países nórdicos.

Liguei para o Fred e poucos segundos depois ouvi sua voz me chamando pela janela da casa imediatamente ao meu lado. Saudamo-nos com um grande abraço, ao lado dele, uma de suas companheiras de moradia, uma estudante da Eslovênia que o que tinha de beleza lhe faltava em simpatia.

O Fred, como lhe era característico, sentia-se responsável para que a minha estadia fosse a melhor possível, sendo, portanto, um guia de primeira. Foi só o tempo de deixar as malas e saímos para caminhar pela cidade que de fato não tinha tantos atrativos ou o Fred, por não estar tão familiarizado, não os conhecia.

Primeiro fui trocar os últimos Euros que me restavam e com eles passamos no McDonalds para uns sanduiches baratos.

Mais tarde conheci os outros estudantes que moravam com o Fred, as que interagi mais foram duas delas, da Espanha e de Luxemburgo. Havia também um estudante Finlandês, Erick, que me ajudou a comprar o bilhete de balsa em uma página Sueca, além de dois novatos, um francês, que pouco falava com o pessoal e um indiano que acabara de chegar e era um bocado esquisito.

No dia seguinte fui com o Fred a uma aula, o tema era metodologia de pesquisa em jornalismo, tema interessante, mas eu tinha maiores distrações no momento, assim, fiquei navegando na internet e atualizando o Blog, que naquela época estava ainda mais atrasado do que agora.

No outro dia fomos a uma partida de futebol, eram três contra três. Eu que nunca fui muito com futebol, estava achando que seria humilhado, mas até que não foi tão ruim, na verdade fui o artilheiro do meu time e a partida foi bastante disputada. Aliás, práticas esportivas são interessantes do ponto de vista fisiológico, chega um momento em que achamos que vamos morrer e que se dermos mais um passo o coração para, mas o mais interessante é que em mais alguns minutos, o corpo se habitua à situação de stress e o cansaço não faz mais tanta diferença, fazendo parecer que podemos aguentar a prática por dias. Ainda assim, não vejo a prática esportiva como rotineira em minha vida.


O detalhe mais importante desta partida foi o frio de rachar, estava -1°C naquele dia, havia gelo na grama ao lado.

Naquela noite rolou uma festa com a turma do programa de mestrado, cada um levava um prato típico de seu país, o Fred, claro, levou cerveja (o que é mais tradicional na Alemanha?). O destaque foi uma salada de bacalhau que uma colega portuguesa levou! Dá-lhe Portugal. Saindo de lá, fomos a uma balada no bar universitário, a minha maior distração foi o Karaoke que tinha lá com várias músicas legais, soltei o gogó com Toxicity do System of a Down. Seguimos para a casa de uma amiga e era uma longa caminhada, dei muita risada com a Ana, uma espanhola pequenininha e muito, muito divertida.

No dia seguinte, fui com o Fred no museu de Aarhus, que se destacava por algumas obras sinestésicas, onde se mistura música, imagem, aromas, cores; tudo muito interessante. A mais especial era a sala de fumaça, onde havia uma névoa densa onde mal podia-se ver a distância de 1 metro, as fotos são praticamente inúteis, mas dá para se ter uma ideia da sensação de estar sozinho no universo em um espaço branco onde mal se veem seus próprios pés.









No dia seguinte, resolvi ajudar o Fred a se integrar mais com pessoas de Aarhus, para isso decidi usar o CouchSurfing, escrevi algumas mensagens para várias pessoas e quem acabou respondendo foi a Katarina, uma estudante de cultura e língua indiana, marcamos e o Fred, vacilão, não pode ir, pois tinha aula no dia seguinte, fui encontra-la sozinho e foi um bate-papo bastante interessante, onde peguei várias dicas de lugares e modos da Índia.

Katarina e uns bêbados chatos que apareceram

No dia seguinte, segui viagem. Saí um pouco atrasado e tive que correr para pegar o trem, na saída do ônibus, peguei informação com um cara super gente fina que além de me informar ainda correu comigo até o trem e me ajudou com a compra do bilhete. Ainda existem pessoas boas no mundo.

É Portugal Opah!!

22 de fevereiro de 2012


Essa é da primeira vez que fui, O Porto, mas a foto é tão legal que vai de novo

Desembarquei em Lisboa relativamente tarde, minha maior preocupação era com a Ana, do CouchSurfing, que me hospedaria. Após várias mensagens e ligações, cheguei ao seu apartamento no Cais do Sodré, uma vizinhança que eu já percebi ser bastante animada e bastante central. Conversamos pouco naquela noite, mas de cara percebi que a Ana era muito engraçada.

A Ana trabalhava como restauradora do patrimônio português, conversamos muito sobre a influência do Brasil na cultura portuguesa e fiquei feliz em saber que pelo menos as novelas não são mais tão frequentes; ela, porém, mostrava-se indignada com relação ao acordo ortográfico, ao qual se referia como a brasileirização oficial da língua portuguesa.

No dia seguinte, fui logo cedo tratar da minha documentação e com muita sorte consegui deixa-la pronta para o final daquele mesmo dia, e enquanto aguardava, marquei um encontro com o Fabrício, aquele maluco que conheci no Marrocos (mais aqui) e que vivia em Lisboa. Demos uma volta pelo bairro alto e depois pela Alfama.




Na sequência fui pegar o meu documento, que emoção! Apartir daquele momento eu era Português, e com isso, além da imediata vantagem de poder viver na Europa, eu poderia tirar o passaporte e com ele, entrar em vários países que são muito mais difíceis de entrar como brasileiro, entre eles, o Japão, o país número um da minha lista de desejos.

Voltei para o apartamento da Ana, de onde iríamos para uma balada. Iniciamos com algumas bebidas antes de sair e seguimos para um clube muito louco que ficava bem ao lado de sua casa. Foi conosco também a sua companheira de apartamento da Romênia, que era uma figura, muito divertida e desastrada, o que garantiu risadas a noite inteira.

No dia seguinte, o plano era acordar cedo para tirar o passaporte, mas isso não aconteceu, acordei bem tarde e fui tratar de tirar o passaporte que, devido ao horário, ficaria pronto apenas na segunda-feira, o que não seria um problema.

Marquei naquela tarde um encontro com a Sofia, minha prima da Ilha da Madeira, com a qual tomei um café. Ainda que não tenhamos superado aquela formalidade de recém-apresentados, temos muito em comum e a conversa fluía variada. O papo estava tão bom que saí atrasado para encontrar a Teresa, do CouchSurfing que me hospedaria naquela noite. Antes de encontra-la, corri para o apartamento da Ana para pegar minha bagagem, a Ana não estava e saí sem me despedir dela, uma pena, ainda mais por que dei um bolo na festa daquela noite.

Fui encontrar a Teresa na estação próxima de sua casa, já sabia que nos daríamos bem mesmo antes de encontrá-la, a lista de coisas que tínhamos em comum era numerosa, mas basta citar que ela estuda Farmácia e curte os mesmos estilos de música que eu. Quando nos encontramos, parecia que já nos conhecíamos dada a forma que conversávamos e interagíamos. Filha de um casal de aventureiros alemães, viajou de bicicleta por centenas de quilômetros quando tinha 12 anos acompanhada pelos pais, uma loucura.

Deixamos minha bagagem em seu apartamento e voltamos com pressa ao encontro de sua irmã na estação, iríamos na sequência para Sintra onde elas tocariam violino em um bar (sim, esqueci de citar que ela é violinista). Elas já pediam desculpas antecipadas pois tocariam sem ensaio, sem partituras e sem saber o que sairia. Apesar do aviso, a apresentação seguiu sublime, empurrada pela energia e empolgação do colega delas que tocava Violoncelo.

A banda

As irmãs Lemmer, Veronika e Teresa



Voltamos para o apartamento e ficamos de papo por altas horas até que o sono venceu.

Infelizmente minha estada com ela se resumiria àquela noite, pois no dia seguinte ela precisava voltar para o Alentejo onde ficaria estudando a semana para a prova de Química Farmacêutica (QF dos infernos). Na verdade, por pouco não fui com ela para o Alentejo, os pais dela eram o tipo de aventureiros com os quais se pode aprender lições valiosas. Ela também ficou tentada a seguir viagem comigo para Barcelona, que faríamos por HitchHiking mas, dada a prova, não iria rolar. Assim, não restava alternativa senão uma amarga despedida com a sensação de que ficou faltando algo.

Segui então para Estoril, onde fui hospedado pela Mimi, uma americana do CouchSurfing que vivia em Portugal trabalhando para uma família de ricaços brasileiros como educadora da filha deles, portadora de autismo.


Já de cara, percebi na sala da Mimi vários objetos relacionados ao Ayrton Senna. Ela era fã doente dele, e com ela assisti ao documentário de sua vida. Entendi por fim o motivo de toda a adoração pois eu, ainda criança na época em que ele morreu, mal lembrava das suas conquistas.

No dia seguinte, fui com a Mimi a uma churrascaria brasileira. A caminhada até Cascais foi marcada pela fome imensa, mas quando finalmente chegamos, eu me acabei com aquela maravilhosa refeição, cheia de pratos típicos como feijoada, pão de queijo e, claro, muita carne e coração de galinha, coisas que eu não comia desde que saí do Brasil há 9 meses.

No dia seguinte fui ao aeroporto pegar o meu passaporte (que emoção) e voltei correndo para Estoril para me despedir da Mimi, pegar minha bagagem e voltar para Lisboa. Estava super atrasado, mas não pude deixar de ir visitar um grande amigo, o Thomas, em seu restaurante. Foi uma pena que não pude dar muito mais do que um alô e um abraço, mas foi ótimo rever essa grande figura. Saí correndo para a rodoviária de onde peguei um ônibus para Barcelona, cidade que saia o meu voo de volta para a Suécia.

Neve na Espanha??

Foi uma viagem de 17 horas, estava destruído, mas foi legal encontrar a Marija, uma sérvia muito legal que conheci em Istambul (mais aqui) e com a qual continuava a me corresponder, ela topou me hospedar naqueles dias até o meu voo.

Como eu já conhecia muito de Barcelona, focamos a estada mais em comer, beber e descansar. Demos algumas caminhadas pela praia e encontramos também a Eva, a amiga que a acompanhava em Istambul. O momento mais surreal foi ter encontrado uma das Britânicas que conheci na Grécia com as quais viajei até a Itália (mais aqui e aqui).



No aeroporto, a surpresa, eu não poderia embarcar para a Suécia caso não tivesse uma passagem de volta comprada, isso porque eu estava usando o passaporte brasileiro, mostrei o ID Português, a atendente abriu um sorriso e, assim, segui viagem para a Suécia (a primeira vez que a cidadania portuguesa me foi útil).