Mostrando postagens com marcador Noruega. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Noruega. Mostrar todas as postagens

De carona no inverno ártico

11 de junho de 2012





Peço desculpa aos leitores pela longa pausa, não foi sem uma boa razão que, aliás, fica para os próximos posts, visto que ainda falta contar sobre a minha ida a Estocolmo.

Já estava muito mais do que na hora de enfrentar a estrada novamente, ficar parado por muito tempo me fez sentir certa urgência em cair na estrada, meu destino final seria Estocolmo, mas ainda havia um longo caminho até lá. E, para compensar por todo esse período de abstinência, eu queria uma overdose e escolhi por caronas como meio de ir até Estocolmo.

Despedi-me dos meus queridos amigos e anfitriões, que tão gentilmente me hospedaram por todo esse tempo. Deu-me uma dor no coração por deixá-los, mas esse sentimento de despedida é uma constante que eu já não sentia havia algum tempo. Ganhei uma carona do Tore até uma bifurcação no caminho para Narvik.

A paisagem era para lá de intimidadora, com mais de um metro de neve nas bordas da estrada, porém, olhando de uma forma mais ampla, sentirei saudades daquela linda paisagem de inverno e aquele fjord com o mar congelado, seria uma última imagem que eu guardaria com carinho da Noruega.  Difícil foi encontrar um ponto seco para deixar a minha bagagem, já estávamos entrando na primavera e a neve começava a derreter dando a si mesma um aspecto sujo e lamacento.


Minha primeira carona foi um fazendeiro que ia até a próxima cidade segundo ele a 7 km, mas que eram na verdade 70 km, os suecos e noruegueses como sempre se deslocam a grandes distâncias costumam cortar um zero em uma unidade de distância local, enfim, excelente.

Ele me deixou próximo a um posto de manutenção de Snowmobiles, assim, era comum vê-los passando rápido para lá e para cá. Fiquei lá, pedindo caronas quando para a minha total surpresa, parou um caminhãozão enorme, destes biarticulados, ele ia até Narvik e me deixaria no caminho, mas antes, precisávamos parar para uma entrega.

No local de entrega, haviam inúmeros veículos militares abastecendo, eles teriam ainda uma longa viagem pela frente com destino à Suécia, estavam ali fazendo exercícios militares, no qual havia ocorrido poucos dias antes um acidente de avião nas montanhas a que me dirigia.


Segui viagem com o caminhoneiro que me deixou na estrada para a Suécia, caminhei um pouco mais e me pus logo depois da entrada em um ponto em que eu poderia ser facilmente visto. Os caminhões militares começaram a passar um atrás do outro, eu não me intimidei e pedi carona para eles também, mas como eu já imaginava ninguém parou, apenas buzinavam em sinal de aprovação e bom humor. Não muito depois consegui uma carona, um guia de montanhismo e esqui que segui até um resort entre as montanhas de Abisko. Ao chegarmos ao destino, havia ali perto um helicóptero pronto para levantar vôo, ele disse-me que se houvesse tempo ele poderia me conseguir uma carona no helicóptero, o problema é que seria de volta para Narvik, como se eu ligasse!

Fui deixado na estrada, no alto da montanha, cheio de neve. Esse foi sem dúvida o momento mais difícil da minha carreira como caroneiro, estava MUITO, MUITO frio, descobri depois que passava dos -9°C, e pior fiquei ali parado por algumas boas horas, pelo menos duas. Os caminhões militares (que havíamos ultrapassado na carona anterior) passaram novamente, os motoristas foram à loucura, buzinaram muito e fizeram uma grande festa por ver aquele caroneiro com a bandeira do Brasil mais uma vez na mesma estrada.



Finalmente um carro parou para me salvar daquela friaca toda, era um alemão que mal falava inglês mas era simpático até demais, até achei que fosse gay e que parou com algumas segundas intenções, pena para ele que essa não é a minha praia, mas foi ótimo pelo fato de ele ter desviado pelo menos uns 200km do caminho para me deixar em Kiruna.

Lá cheguei e fui hospedado em uma casa de estudantes, eram três, mexicano, nepalês e português, muito divertidos e que me levaram para uma partida de futebol com outros estudantes. Muito mal que o fato de eu ser brasileiro eleva a expectativa deles com relação às minhas habilidades inexistentes no futebol.

No dia seguinte, estava pronto para seguir viagem, já com a mochila nas costas quando um rapaz na janela após falarmos rapidamente me oferece uma carona até a saída da cidade (o que me economizou uma graaaaande caminhada), antes disso uma cerveja e um bate-papo rápido. Ele, aliás, era do CouchSurfing também.

Fiquei na estrada, desta vez a paisagem não era tão ruim assim, a temperatura estava até agradável (para os padrões do dia anterior) e após não mais do que uma hora parou uma van vermelha com uma mulher super sorridente e feliz, louca para me dar uma carona, mas ela só iria por 2 km, declinei, afinal, o ponto em que eu estava era muito bom. Mais alguns minutos e ganhei uma carona por uns 150 km com um senhor muito simpático e falador. A segunda carona do dia foi com um fiscal da empresa de trens da Suécia e que me deu uma carona até o meu destino final: Lansjärv,  local de residência da Ann-Louise e do Tomas que já me hospedaram no verão (post aqui) e que encontrei na Turquia (post aqui).

Meus dias em Lansjärv e a continuação da viagem até Estocolmo ficam para o próximo post.

As Auroras Boreais

18 de abril de 2012



Aurora Boreal é um evento cósmico que ocorre nas regiões polares que fazem das noites de inverno destas regiões parecerem mágicas.

O vídeo abaixo explica como e porque elas ocorrem:


Resumindo, as auroras ocorrem devido a influência do plasma oriundo das explosões solares com a alta atmosfera, ocorrem nos polos, pois é ali a parte mais fraca do escudo magnético da Terra.

É um evento surpreendentemente frequente, quando estive por lá, aconteceu quase todas as noites sem nuvem que tivemos, e este foi o problema, quase todos os dias foram nublados.

A primeira noite que eu as vi, era uma noite muito, muito fria, os termômetros marcavam -14°C. Mesmo com toda a roupa que eu tinha, não consegui aguentar por muito tempo. Ainda assim foi o suficiente para vê-las, magníficas e fantásticas.

Vejam no vídeo da National Geographic como elas são fantásticas:


Foi com essa expectativa que fui vê-las e tive uma pequena decepção, elas não são tão rápidas como aparecem no vídeo, elas na verdade são praticamente estáticas, mas como o vídeo é acelerado, parece que as luzes se movem muito rapidamente. Mas isso não tira a magia delas.

Na primeira foto que ia tirar ocorreu umas das mais fortes e magníficas que eu vi em todo o período em que estive na Noruega, porém o lugar era péssimo para fotos devido à todas aquelas luzes, corri para um lugar mais neutro, mas as luzes haviam se dissipado.


Em outro dia, na parte de trás da casa, valia pela paisagem toda.



As melhores fotos que consegui tirar foram na casa de campo do casal Larsen (que me hospedavam), o lugar era lindo, enfiado em um Fjord (braço de mar cercado por montanhas) e as fotos ficaram realmente impressionantes.




Essa não tem Aurora mas serve para mostrar como o lugar é lindo.

No total de 2 meses que fiquei em Sortland, só houve céu claro com Auroras por no máximo umas 4 noites, então, tomem cuidado ao planejar viagens com o objetivo de verem as Auroras, pode ser uma tremenda decepção.

Por fim, quando segui para a Suécia, já muitos quilômetros ao sul, não tinha mais esperanças de ver qualquer outra aurora e, para a minha surpresa, vi a mais forte, impressionante e fabulosa aurora, multicolorida em branco, vermelho e verde e movendo-se tão rápido que o movimento era perceptível. Infelizmente havia muita luz e eu não tinha um tripé para a minha câmera, essa ficou então só na memória.

Trabalhando na Noruega

16 de abril de 2012


Estava em Sortland esperando o meu grande parceiro Tom chegar e, como isso só iria acontecer em duas semanas, achei que seria legal tentar arrumar algum trabalho e quem sabe ganhar um dinheirinho. Segui a sugestão do Tore e da Torhild e fui até o porto, onde sempre precisavam de mão de obra.

Na CTG, uma das empresas que ficam por lá, entrei e localizei o Freddy, responsável pela descarga dos navios. Na conversa, ele não fez muitas perguntas, disse apenas para que eu voltasse mais tarde pronto para trabalhar, o salário era o equivalente a 22€ por hora, uma fortuna se compararmos com os 5€/h de Portugal.

Voltei às 16h, coloquei um macacão preparado para baixas temperaturas, capacete e uma bota de segurança que tomei emprestada de um colega romeno, essa bota possuía a parte da frente em metal, protegendo assim, meus preciosos dedos caso alguma coisa caia sobre o meu pé.

Segui a turma para dentro do navio, descemos uns dois andares passando por uma linha de produção. Neste barco, os peixes são pescados no mar e processados ainda dentro do navio onde são estocados em caixas de 20 kg no porão do navio à -20°C, e era nesse ambiente que trabalharíamos, retirando as caixas para pallets que seriam retirados do navio. De cara eu me assustei com a quantidade de caixas, demorou dois dias para uns 8 homens tirarem tudo.

Trabalhava comigo um cara, que me parecia africano e que era bem devagar, eu sei que não é legal, mas era difícil não rir da burrice dele. Não existe trabalho estúpido o suficiente para que pessoas estúpidas não o façam mal feito.

Naquele dia, trabalhei apenas seis horas, quase nada perto do que me esperava no dia seguinte quando trabalhei 14 horas, muito puxado, mas considerando os ganhos, valia o esforço, cada hora trabalhada representava um dia a mais de viagem em países como Índia ou Tailândia. Devido a exaustão do dia anterior, peguei um dia de folga e trabalhei mais 11 horas no dia seguinte que, interessantemente, foi muito, muito mais tranquilo, acho que meus músculos se adaptaram às condições de trabalho extremas.

Na próxima semana, liguei para o Freddy para ter uma ideia de quando seriam os próximos desembarques, ele disse que não havia previsão ainda, quando perguntei sobre como seria o pagamento ele disse-me que precisaria do cartão de impostos, só que para tirá-lo eu precisaria do contrato de trabalho, ele disse sem problemas, eu só precisava ligar no dia seguinte que ele resolveria esse imbróglio.

Liguei no dia seguinte, e nada de ele atender. No outro dia: nada, muito estranho. E assim foi por semanas e semanas, a minha paciência havia se esgotado, tentei ser legal com ele, mas aquela situação já estava ridícula.

Foi assim que em um certo dia comecei a ligar a cada cinco minutos até a hora que ele atendeu bastante impaciente:

– Olha, eu estou ocupado, quando for para te pagar eu te ligo – disse o Freddy.

– Freddy – respondi calmamente – eu já estou esperando sua ligação há mais de três semanas.

– Não é problema meu se você não tem os documentos para eu te pagar – disse ele cinicamente.

– Como não é seu problema? Para solicitar o cartão de impostos, preciso do contrato de trabalho que era de sua responsabilidade ter me dado antes mesmo de eu começar a trabalhar.

– Então tá, eu ia te pagar sem precisar de documento nenhum, mas já que você insiste, vou te fazer esse contrato, depois pra fazer o cartão leva uns dois meses, mas isso é problema seu. Amanhã vou estar em Sortland e eu te ligo para assinar o contrato.

Na verdade eu sabia que não demorava tanto e estava bastante tranquilo com relação a isso, desta forma, no dia seguinte só restou esperar, esperar e nada de ele ligar, que saco, vamos começar tudo de novo. Comecei a ligar novamente a cada cinco minutos e nada.

No dia seguinte, resolvi ir até a empresa que eu tinha trabalhado, encontrei um dos operadores de empilhadeira e fiquei sabendo que no dia seguinte eu poderia encontrar o Freddy, pois haveria um desembarque. Dito e feito, cheguei no dia seguinte e encontrei o Freddy com sua característica cara cínica.

– O que você está fazendo aqui? – disse ele, já meio agressivo.

– Vim saber como é que vou ser pago – respondi tentando manter a calma.

– Cadê o seu cartão de imposto? – como pode ser tão cínico?

– Como assim cadê o cartão, você sabe que para tirá-lo eu preciso do contrato que você disse que ia me dar.

– Sinto muito não posso te dar nenhum contrato agora, pois isso vai significar que eu ainda quero você trabalhando comigo, mas você é muito chato – e tenta segurar a vontade de pular no pescoço desse FDP.

– Esse contrato você deveria ter me dado antes de começar a trabalhar, era sua obrigação.

– Aquilo era uma experiência, mas você bagunçou tudo.

– OK, se você não quer me dar esse contrato eu serei obrigado a entrar em contato com a Fiscalização Trabalhista para ver o que eles acham disso – na Noruega, os fiscais de trabalho podem fazer a vida do empregador um inferno, mesmo que tudo esteja certo o que não era o caso. Bom daí ele começou a gritar:

– Se você não der o fora daqui imediatamente eu vou chamar a polícia.

– Ótimo, pode chamar, estou curioso para saber o que você vai dizer a eles.

– Que você não pode ficar na Noruega sem documentos.

Foi aí que percebi que o plano dele nunca foi de me pagar, ele achava que eu era um imigrante ilegal e obviamente, nunca conseguiria um cartão de impostos se fosse esse o caso, mas tinha um detalhe que eu nunca tinha falado para ele:

– Amigão, eu sou português, eu posso morar e trabalhar aqui o tempo que eu quiser.
Daí ele ficou putaço, me pegou pelo colarinho e me mandou sair dali, pois estava atrapalhando o andamento do serviço. Daí eu disse:

– OK, eu vou embora, mas antes de ir, eu vou falar para as pessoas daqui da CTG (ele era um prestador de serviços) o tipo de profissional que você é.

– Hahaha, eu dou risada de pessoas que tentam isso, você acha que eu estou preocupado.

Saí do depósito onde estávamos e entrei na primeira porta do escritório e perguntei à uma das pessoas ali para saber com quem eu precisaria falar para resolver o meu problema com o Freddy. Com isso, ainda estava na metade do discurso o Freddy apareceu e me puxou para fora da sala, gritando alto que eu não devia fazer aquilo etc.

Com o barulho desceu um cara do andar de cima, que fez o Freddy se acalmar, expliquei por cima a situação do contrato, eles trocaram algumas frases em norueguês, o Freddy abaixou a bola e me deu um papel com um telefone (que ele já tinha escrito) dizendo para que eu ligasse e resolvesse o problema.

Antes de sair olhei para ele e perguntei:

– Precisava de tudo isso para algo tão simples?

Liguei para o telefone, uma mulher atendeu, passei meus dados, 10 minutos depois encontrei o Freddy novamente para assinar o contrato, no qual ele me fez assinar sem dizer nenhuma palavra. Peguei o contrato, fui à central de impostos.

Uma semana depois o cartão chegou, falei com a mulher e fui pago no mesmo dia.

Com relação ao Freddy, nunca mais o vi, mas ele terá uma surpresa quando os fiscais trabalhistas aparecerem por lá. Bwahahaha!

Ainda mais sorte em Sortland

25 de março de 2012



Voltar ao ártico no inverno era uma promessa que eu fiz a mim mesmo quando saí de lá no verão. Encontrar o Tom seria reencontrar um grande amigo, porém as mensagens que enviei a ele, de uma hora para outra, não retornavam. O Tom estava incomunicável, por razões que não valem a pena serem citadas aqui. Acabei, desta forma, escrevendo a seus pais que se prontificaram a me receber e, coincidentemente, chegariam de viagem exatamente no mesmo dia que eu e no mesmo aeroporto.

O Tore e a Torhild me receberam como um filho em uma estadia que se estendia semana após semana.
A Torhild é enfermeira e trabalha diariamente, uma senhora muito inteligente com quem sempre tive conversas estimulantes e profundas. Sempre fazendo o possível para que eu me sentisse em casa, o que aconteceu depois de alguns dias, me fazendo até me sentir um pouco culpado.

O Tore é um encanador experiente que desde jovem deu vazão à suas aspirações empreendedoras e, com grande sucesso, criou uma rede de lojas de decoração. Apesar da nossa diferença de idade, nos tornamos grandes amigos desde os belos dias de verão, no qual tomamos junto um porre regado a muito vinho e jogo de xadrez.

Tore e sua filha Tove em sua loja

A hospitalidade foi imensa, o conforto nem se fala, além de uma cama confortabilíssima, havia um banheiro só para mim, nesse banheiro tinha uma sauna e o exagero: uma banheira de hidromassagem. Esse último detalhe me fez cair na risada em quanta, quanta sorte eu tinha.


A semana corria tranquila quando recebemos a notícia de que o Tom, grande comparsa, estaria na cidade em duas semanas. Foi essa a primeira desculpa para estender a minha estada.

Bem, já que vou ficar aqui por duas semanas, talvez valha a pena arrumar um emprego. Foi o que eu fiz, com consequências tão complicadas que vai ganhar um post só para isso, mas o que precisa ser dito é que isso me deu motivo para estender minha estada por pelo menos mais um mês.

Fato interessante é que, nos dias em que o Tore saia para fazer alguma instalação ou serviço externo como encanador, acompanhei-o alguns punhados de vezes, os mais interessantes foi a instalação de uma pia, incluindo todo o encanamento de água e esgoto em um supermercado e uma instalação de móveis de banheiro.

Aos finais de semana não havia muito que fazer na cidade, assim o programa principal era ir até a casa de campo nas montanhas que ficava em meio às montanhas de um Fjord lindíssimo chamado Fiskefjord, que traduzindo seria o Fjord dos peixes. Lá passávamos dias bastante relaxantes em meio a toda aquela neve que era muito mais alta do que na cidade.


Da esquerda para a direita: Anne, Tore, Hauk Ivar e Torhild

Uma figura frequente que encontrávamos por lá era a Anne, irmã do Tore, e seu marido Hauk Ivar que era um cara muito legal, sempre falando da vida, cultura, costumes e culinária norueguesa. Também ele que tentou – sem sucesso, devo dizer – a esquiar.


Foi ele também que, junto ao Tore, me ajudou a desatolar o Snowmobile em todas as minhas tentativas de andar nele, é muito difícil, ainda mais na hora que eu caí em um buraco coberto de neve, ficamos mais de dez minutos extenuantes para tirar todo aquele peso do buraco, e conseguimos. Enfim, acho que esportes de inverno e brasileiros são mesmo incompatíveis.

Vale mencionar a linda paisagem de inverno daquela região:







Em uma dessas idas e vindas, acabamos atropelando um alce na estrada. Felizmente era um alce bebê, e o carro era grande, de outro modo, há um sério risco. O alce parecia bem, apenas não conseguia levantar. Chamamos as autoridades que não demoraram a enviar alguém. Imaginei que levariam o pobre alce ao veterinário para tratar dos ferimentos e devolvê-lo à natureza. Ledo engano: o alce acabou levando um tiro de escopeta.


O resultado ficou na estrada.


A razão principal para o meu retorno a esta região era ver as auroras boreais, que também valem um post. Só uma foto para dar um gostinho:


Depois de algumas semanas, recebemos a visita do Tom, apenas para aquele final de semana. Fui com a Torhild ao aeroporto busca-lo e foi um reencontro muito feliz e a alegria se estendeu por todo o final de semana, a começar pela festa que rolou naquela sexta feira mesmo, iniciada no bar, terminada na casa do Tom, com direito a black-out e ressaca máster. Foi triste vê-lo despedir0se do filho e partir a contragosto.

Após algumas semanas, passava a maioria dos dias em casa sem ter muito que fazer. Cansei de tanta preguiça e mandei algumas mensagens para o pessoal do CouchSurfing da região, e entre algumas respostas, recebi uma da Dorka, uma farmacêutica da Eslováquia, assim, os dias ficaram menos monótonos, visto que ela recebia frequentes visitantes. Em um final de semana, fomos a um local onde as tradições Sami (nativos da Escandinávia, relacionados aos esquimós e que viviam ali antes dos Vikings) acompanhados da Maria, uma russa muito engraçada, acabamos não vendo nada senão algumas renas, tiramos algumas fotos e fomos expulsos do local sob protestos da dona, que em geral cobra por fotos como aquelas.



No total foram quase dois meses ali em Sortland, ficar parado por tanto tempo teve um custo muito pesado, não financeiro já que o Tore nunca me deixou encostar em minha carteira, mas um custo pessoal. Eu já estava habituado à vida na estrada, cheia de aventuras e longe de qualquer rotina. Ficar tanto tempo parado significou colocar o meu projeto de vida na geladeira por este período e depois de algumas semanas eu estava sedento para cair na estrada novamente.

Rumo ao Norte

14 de março de 2012



Cheguei em Varberg após algumas horas de Balsa. Estava bastante frio e havia ainda bastante neve daquele lado (ao que parece não nevara na Dinamarca). Após alguns minutos fui resgatado daquela noite fria pelo Jim e pela Bella, um casal muito legal que me acolheria naquela noite.

Antes de seguirmos para sua casa, os acompanhei ao supermercado, um lugar que é sempre interessante ir, pode se aprender muito sobre a cultura local vendo-os fazer compras.

Em casa, ficamos de papo por várias horas e também durante um delicioso jantar feito pela Bella. Descobri que o Jim era engenheiro de segurança em uma usina nuclear, usou o Homer Simpson para exemplificar.

Já no dia seguinte segui viagem para Oslo, mas aproveitei a parada obrigatória em Gothemburg para dar uma passada no Shopping e encontrar a Sofie em mais um protesto, que ficou muito, muito feliz em me ver, é impressionante a energia positiva que ela tem. Infelizmente nosso encontro seria bastante curto, pois meu ônibus com destino a Oslo sairia em alguns minutos, deu apenas tempo de dar um abraço sintetizar as novidades e nos despedir, antes de seguir para a rodoviária deu tempo para mais um par de Semlas.

Chegando em Oslo, segui para a casa da Ingvild, do CouchSurfing. Deu um pouco de trabalho para desvendar o mistério da numeração das ruas da Noruega, mas chegando lá: Uau, que casa linda, parecia que tinha saído diretamente de um desses contos infantis. Com um jardim todo branco pelos 30 cm de neve, árvores desfolhadas pelo inverno e pinheiros enormes tudo isso sob a penumbra de uma iluminação ineficaz, porém charmosa.

A foto de dia ficou uma merda

Chegando lá, fui recebido pela Ingvild, um tipo raro de pessoa. A primeira coisa que chama a atenção nela é a sua altura, ela era maior do que eu. Em segundo lugar sua atitude frente à vida: uma batalhadora, aventureira e uma pessoa feliz. Suas viagens são nada menos do que inspiradoras, ela já esteve nos cinco continentes e não foi apenas por uma pequena temporada. Junto dela, estava uma amiga Sueca, muito divertida e que tinha uma conexão especial com a Ingvild que as deixavam na mesma sintonia.

Ingvild no Malawi (roubei a foto dela no CouchSurfing)

Rolou uma festa com o pessoal do CouchSurfing que morava em Oslo, conheci desta forma um monte de gente legal e inspiradora que nos acompanharam para uma noite de festa. Começamos em um Bar no centro de Oslo, e nosso grupo se separou, algumas das pessoas eram menores de 18 anos e não puderam entrar.

A diversão aumentava conforme subia o grau alcoólico da Ingvild e eu, como seu hóspede, tive que tomar a posição de seu guardião, tentando me divertir enquanto mantinha um olho sempre na direção dela. Fomos a um bar brasileiro, muita animação e músicas que eu conhecia, com alguns brasileiros inclusive para matar a saudade do meu português.

A amiga sueca da Ingvild desapareceu acompanhada por um antigo “amigo”, mas eu e a Ingvild não estávamos sós. O tempo foi passando, e com isso chegou a hora de ir. Paramos primeiro em uma loja de departamento, a Ingvild resolveu levar algumas pizzas congeladas, mas se recusava a pagá-las, ela queria roubá-las! Eu na convenci do contrário, e seguimos o caminho. Apareceu um cara, conhecido dos outros, com uma atitude muito esquisita em cima da Ingvild, veio abraçando-a, mesmo que sua altura mal chegava aos ombros dela, tentando convencê-la de ir com ele para a casa dele. Ela não estava em condições de tomar uma decisão daquelas, e a reação dela e dos outros não parecia sugerir que ela estivesse interessada, e como o cara estava muito esquisito e agressivo em cima dela, eu, como seu guardião acidental, resolvi intervir puxando-o para longe dela. Ele protestou agressivo, mas peitei-o dizendo: Ela NÃO vai contigo! Na hora pensei que ia rolar uma briga, mas ele foi embora. Acho que o intimidei com a minha barba Viking.

Antes de ir para casa, a Ingvild apresentou evidente melhora após um lanche no McDonalds. Tomamos um taxi cum um amigo que também ficaria hospedado conosco, ficamos os três de papo bebendo água até não haver qualquer evidência de embriaguez entre nós.

Fiquei mais dois dias nos quais não fiz muito, exceto por uma caminhada em Oslo que não teve nada de especial, exceto por um Kebab e uma caminhada no cemitério perto da casa da Ingvild, uma incrível paisagem que me fazia sentir em um mundo em preto e branco. Perdi também a oportunidade de ter ido esquiar com ela, já que perdi sua ligação no celular que ficou em casa.



Na manhã do dia 31 saí de casa cedo, e quase perdi o meu avião, uma vez que pelos cálculos da Ingvild, a viagem até o aeroporto levaria apenas uma hora, mas isso considerando alguém que sabia aonde ir, o que não era exatamente o meu caso, desta forma tive que correr e muito para pegar o avião nos últimos minutos. Destino: Harstad, 200 km acima do círculo polar ártico.

Comoção em Oslo

13 de agosto de 2011


Chegando em Oslo, peguei um trem até o centro da cidade, a estação central estava em obras, acabei pegando um ônibus até lá.

A cidade de Oslo é toda arrumadinha, limpa e organizada. Um belo cenário para a longa caminhada para busca de hostel. Eu peguei algumas sugestões na Internet e fui atrás delas. O primeiro deles era bem longe do centro, preferi ir caminhando. Chegando por lá, o hostel era na verdade um hotel caro porém com alguns quartos baratos, cheguei a fazer o check in, era meio caro, mas trata-se de Oslo, normal. Fui no quarto, eram quartos individuas, com televisão e tudo o mais, muito luxuoso para o meu gosto, comecei a me arrepender. Abri o computador e nada de internet. Fui até a recepção e eu teria que pagar uma taxa extra de 7 euros para usar a internet, isso foi a gota d'água, pedi para cancelar o check-in e fui para outro lugar. Agora seguiria a sugestão do Lonelly Planet e acabei acertando, um excelente hotel, bastante central, com internet gratuita e mais barato que o anterior.

Terminado o processo de acomodação, o objetivo agora seria seguir passeio pela cidade, eu só teria um dia para Oslo, então eu tinha que fazer valer  pena. Segui caminhando pela rua e uma coisa me chamou a atenção, flores espalhadas por diversos monumentos da cidade, eu sabia o motivo.
Cheguei na Catedral, e vi algo que me emocionou.

Os moradores e visitantes de Oslo mostravam sua comoção pelas mortes ocorridas na semana anterior, quando um extremista político covarde bombardeou o centro da cidade e em seguida matou dezenas de jovens em uma ilha próxima a Oslo.

Quando cheguei à Noruega, algo que havia me chamado a atenção é o certo afastamento que os noruegueses mantém-se de uma identidade nacional. Esse atentado, porém, fez com que, pela primeira vez, eu ouvisse a expressão "nosso país" de forma não perjorativa.

Esse cenário de certa forma diminuiu muito o meu clima de sair para explorar a cidade, além de fazer isso sozinho (algo que passei a não curtir muito), mas, estava em Oslo, sem planos de voltar tão cedo, me arrependeria se não seguisse o passeio e foi isso que fiz.

Em Oslo, assim como em várias cidades européias,  há disponibilidade de bicicletas em vários pontos da cidade, no qual, para alugar, é necessário um cartão que é quase gratuito para moradores e muito barato para turistas. Paguei cerca de 8 € para 24 horas de bicicletas.

Bicicleta é uma forma muito prática de conhecer uma cidade, pode-se deslocar muito mais rapidamente de um ponto para outro, o que agiliza muito o processo de conhecer a cidade. Fui em uma espécie de fortaleza que contava com uma vista fantástica da cidade. Fui até o museu de embarcações vikings outro de tradições culturais, porém descobri uma falha importante no sistema de bicicletas, há vagas limitadas nas estações de bicicletas, se a estação está cheia, não há como deixar a sua bicicleta. No final, acabei esperando um bocado, ninguém veio pegar bicicleta e eu acabei voltando para Oslo sem ter visto o museu, e o caminho era longo, cerca de uns 5 km.


Não fiz muito mais naquele dia. Tentei encontrar uma festa para ir, mas balada sozinho é meio chato, e a turma do hostel não tava muito no clima. Acabei ficando de papo com um grupo de alemães que estava no mesmo quarto que eu e fui dormir para tentar acordar cedo e explorar mais a cidade no dia seguinte.
Acordei tarde, sem pique para passeio, fui para o aeroporto com destino a Dubrovnik, Croácia.

O roteiro do primeiro dia:

Muita sorte em Sortland!

7 de agosto de 2011


Encontrei o Tom em um bar/restaurante na beira da estrada próximo ao Museu Viking em Borg. Ele chegou dizendo que era músico e que iria tocar naquela noite naquele mesmo bar e que eu tinha que ficar. Meu plano era seguir viagem e não tava muito a fim de acampar por ali. Mas ele insistiu, o show ia ser demais, várias mulheres e além disso, ele tinha cerveja aos montes em seu próprio ônibus. Bem, esse foi um excelente argumento, resolvi ficar.
Chegando lá, conheci um monte de gente que o acompanhava. A Lena, uma mulher que quase não abria a boca. A Marthe, filha do Tom, que falava aos montes, menos comigo, a desculpa era que não falava inglês, OK. O Kato, que era muito gente fina, mas bebia muito além de usar aquelas paradas de tabaco nojentes. Por fim conheci o Lemart, parceiro musical do Tom, parceirão de papo.

O Tom parece que curtia ajudar viajantes, disse que no passado ficou com um casal de Israel por quase 15 dias, e os conheceu do mesmo jeito que eu, na estrada.
A dupla Tom & Lemart fazem shows aos montes. O Lemart toca violão e guitarra enquanto o Tom canta, toca baixo, lança os samplers, organiza shows e ainda pega mulher aos montes no tempo livre.



O show daquela noite foi bastante divertido, ficamos de papo no bar com um monte de gente. A curiosidade geral era saber o que um brasileiro fazia naquele fim de mundo. Dormi no ônibus e no dia seguinte o programa era guardar os equipamentos, andar 20 km com o ônibus e montar todo o equipamento novamente para o outro show.

O Tom comentou que haveria três shows no próximo final de semana e que se eu quisesse poderia ficar hospedado em sua casa até lá. Ah, detalhe, o último show seria para um grupo de 300 mulheres que escalariam uma montanha próxima. Impossível dizer não.
Naquele dia o momento mais interessante foi ver o Kato brigando com um cara que tava pegando a Marthe, filha do Tom e sua ex-namorada. No final, o Kato que estava bebaço levou a pior e ganhou um corte sangrento no rosto.
No dia seguinte, pé na estrada para Sortland, uma cidade localizada em uma ilha próxima a Lofoten. A cidade não tem muito a oferecer para turistas, então boa parte do programa daquela semana era ir ao bar tomar umas cervejas, que aliás eram caríssimas, cada uma por volta de 5 €.
Sim, os bares tem cobertores para segurar o frio...

Não canso de lembrar da paisagem belíssima da Noruega, com suas montanhas enormes. Vale lembrar que ao contrário dos dias em Lofoten, o clima estava muito bom, céu azul e um baita calorão (padrões Noruegueses, claro).

O Tom mora sozinho, mas sozinho em casa, pelo visto ele não fica nunca. Toda hora tinha gente por lá, fazendo churras, bebendo cerveja e fazendo festa.
Outro programão que fizemos algumas vezes era ir à casa de campo do Tom e de sua família. Lá encontrávamos o pai do Tom, um senhor muito simpático cujo o papo interessante me fez acompanhá-lo na bebida o que teve consequências desastrosas. Além dele, estava sempre por lá o filho do Tom, um garoto de 11 anos muito esperto.

O destaque para o primeiro dia por lá foi a pescaria. Eles possuem um barco adaptado para pesca, minha última tentativa de pesca com a Jy foi um desastre, então essa, com profissionais, tinha que funcionar. E funcionou, pesquei pelo menos uns cinco peixões que naquela noite viraram janta, servidos com batata. Excelente.


Ali na casa de campo, eles tinham todo um arsenal utilizado para caça (que na Noruega é liberada), tinha de tudo por lá, desde pistolas de pressão até calibre 12, com a qual dei alguns tiros... Bem louco!
O dias na Noruega passavam rápido dada toda a diversão que tinha por lá. Mas havia uma coisa me incomodando: o visto Europeu.
Na Europa, brasileiros podem permanecer por até 90 dias. Quando me dei conta da situação delicada que me encontrava faltavam apenas 7 dias para o vencimento do meu visto. Procurando pela internet, não há muita referência ao que pode acontecer no caso de ultrapassar esse limite, parece depender muito do oficial que me pegar na saída, pode não acontecer nada, posso ser banido da Europa e não poder nunca mais voltar. Na dúvida, decidi por não ultrapassar o limite, comprei o tíquete mais barato possível para fora da área de Schengen (zona de livre fronteiras) o país escolhido foi a Croácia, paguei 58 € pelo bilhete.
A despedida do Tom foi bastante legal. Ele fez um excelente bacalhau, bebemos várias, caminhamos com toda uma galera para um acampamento no alto da montanha e ficamos de papo até umas 3 horas e pouco da manhã quando eu ganharia uma carona da gentilíssima Rita até o aeroporto.
Bacalhau e Periquita!

O caminho até o aeroporto foi marcado por um nevoeiro muito bonito.



A próxima parada antes de seguir para a Croácia seria Oslo, palco de uma chacina alguns dias antes. Eu já poderia esperar uma cidade com uma atmosfera pesada e foi exatamente isso o que encontrei.