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De carona no inverno ártico

11 de junho de 2012





Peço desculpa aos leitores pela longa pausa, não foi sem uma boa razão que, aliás, fica para os próximos posts, visto que ainda falta contar sobre a minha ida a Estocolmo.

Já estava muito mais do que na hora de enfrentar a estrada novamente, ficar parado por muito tempo me fez sentir certa urgência em cair na estrada, meu destino final seria Estocolmo, mas ainda havia um longo caminho até lá. E, para compensar por todo esse período de abstinência, eu queria uma overdose e escolhi por caronas como meio de ir até Estocolmo.

Despedi-me dos meus queridos amigos e anfitriões, que tão gentilmente me hospedaram por todo esse tempo. Deu-me uma dor no coração por deixá-los, mas esse sentimento de despedida é uma constante que eu já não sentia havia algum tempo. Ganhei uma carona do Tore até uma bifurcação no caminho para Narvik.

A paisagem era para lá de intimidadora, com mais de um metro de neve nas bordas da estrada, porém, olhando de uma forma mais ampla, sentirei saudades daquela linda paisagem de inverno e aquele fjord com o mar congelado, seria uma última imagem que eu guardaria com carinho da Noruega.  Difícil foi encontrar um ponto seco para deixar a minha bagagem, já estávamos entrando na primavera e a neve começava a derreter dando a si mesma um aspecto sujo e lamacento.


Minha primeira carona foi um fazendeiro que ia até a próxima cidade segundo ele a 7 km, mas que eram na verdade 70 km, os suecos e noruegueses como sempre se deslocam a grandes distâncias costumam cortar um zero em uma unidade de distância local, enfim, excelente.

Ele me deixou próximo a um posto de manutenção de Snowmobiles, assim, era comum vê-los passando rápido para lá e para cá. Fiquei lá, pedindo caronas quando para a minha total surpresa, parou um caminhãozão enorme, destes biarticulados, ele ia até Narvik e me deixaria no caminho, mas antes, precisávamos parar para uma entrega.

No local de entrega, haviam inúmeros veículos militares abastecendo, eles teriam ainda uma longa viagem pela frente com destino à Suécia, estavam ali fazendo exercícios militares, no qual havia ocorrido poucos dias antes um acidente de avião nas montanhas a que me dirigia.


Segui viagem com o caminhoneiro que me deixou na estrada para a Suécia, caminhei um pouco mais e me pus logo depois da entrada em um ponto em que eu poderia ser facilmente visto. Os caminhões militares começaram a passar um atrás do outro, eu não me intimidei e pedi carona para eles também, mas como eu já imaginava ninguém parou, apenas buzinavam em sinal de aprovação e bom humor. Não muito depois consegui uma carona, um guia de montanhismo e esqui que segui até um resort entre as montanhas de Abisko. Ao chegarmos ao destino, havia ali perto um helicóptero pronto para levantar vôo, ele disse-me que se houvesse tempo ele poderia me conseguir uma carona no helicóptero, o problema é que seria de volta para Narvik, como se eu ligasse!

Fui deixado na estrada, no alto da montanha, cheio de neve. Esse foi sem dúvida o momento mais difícil da minha carreira como caroneiro, estava MUITO, MUITO frio, descobri depois que passava dos -9°C, e pior fiquei ali parado por algumas boas horas, pelo menos duas. Os caminhões militares (que havíamos ultrapassado na carona anterior) passaram novamente, os motoristas foram à loucura, buzinaram muito e fizeram uma grande festa por ver aquele caroneiro com a bandeira do Brasil mais uma vez na mesma estrada.



Finalmente um carro parou para me salvar daquela friaca toda, era um alemão que mal falava inglês mas era simpático até demais, até achei que fosse gay e que parou com algumas segundas intenções, pena para ele que essa não é a minha praia, mas foi ótimo pelo fato de ele ter desviado pelo menos uns 200km do caminho para me deixar em Kiruna.

Lá cheguei e fui hospedado em uma casa de estudantes, eram três, mexicano, nepalês e português, muito divertidos e que me levaram para uma partida de futebol com outros estudantes. Muito mal que o fato de eu ser brasileiro eleva a expectativa deles com relação às minhas habilidades inexistentes no futebol.

No dia seguinte, estava pronto para seguir viagem, já com a mochila nas costas quando um rapaz na janela após falarmos rapidamente me oferece uma carona até a saída da cidade (o que me economizou uma graaaaande caminhada), antes disso uma cerveja e um bate-papo rápido. Ele, aliás, era do CouchSurfing também.

Fiquei na estrada, desta vez a paisagem não era tão ruim assim, a temperatura estava até agradável (para os padrões do dia anterior) e após não mais do que uma hora parou uma van vermelha com uma mulher super sorridente e feliz, louca para me dar uma carona, mas ela só iria por 2 km, declinei, afinal, o ponto em que eu estava era muito bom. Mais alguns minutos e ganhei uma carona por uns 150 km com um senhor muito simpático e falador. A segunda carona do dia foi com um fiscal da empresa de trens da Suécia e que me deu uma carona até o meu destino final: Lansjärv,  local de residência da Ann-Louise e do Tomas que já me hospedaram no verão (post aqui) e que encontrei na Turquia (post aqui).

Meus dias em Lansjärv e a continuação da viagem até Estocolmo ficam para o próximo post.

Ainda mais sorte em Sortland

25 de março de 2012



Voltar ao ártico no inverno era uma promessa que eu fiz a mim mesmo quando saí de lá no verão. Encontrar o Tom seria reencontrar um grande amigo, porém as mensagens que enviei a ele, de uma hora para outra, não retornavam. O Tom estava incomunicável, por razões que não valem a pena serem citadas aqui. Acabei, desta forma, escrevendo a seus pais que se prontificaram a me receber e, coincidentemente, chegariam de viagem exatamente no mesmo dia que eu e no mesmo aeroporto.

O Tore e a Torhild me receberam como um filho em uma estadia que se estendia semana após semana.
A Torhild é enfermeira e trabalha diariamente, uma senhora muito inteligente com quem sempre tive conversas estimulantes e profundas. Sempre fazendo o possível para que eu me sentisse em casa, o que aconteceu depois de alguns dias, me fazendo até me sentir um pouco culpado.

O Tore é um encanador experiente que desde jovem deu vazão à suas aspirações empreendedoras e, com grande sucesso, criou uma rede de lojas de decoração. Apesar da nossa diferença de idade, nos tornamos grandes amigos desde os belos dias de verão, no qual tomamos junto um porre regado a muito vinho e jogo de xadrez.

Tore e sua filha Tove em sua loja

A hospitalidade foi imensa, o conforto nem se fala, além de uma cama confortabilíssima, havia um banheiro só para mim, nesse banheiro tinha uma sauna e o exagero: uma banheira de hidromassagem. Esse último detalhe me fez cair na risada em quanta, quanta sorte eu tinha.


A semana corria tranquila quando recebemos a notícia de que o Tom, grande comparsa, estaria na cidade em duas semanas. Foi essa a primeira desculpa para estender a minha estada.

Bem, já que vou ficar aqui por duas semanas, talvez valha a pena arrumar um emprego. Foi o que eu fiz, com consequências tão complicadas que vai ganhar um post só para isso, mas o que precisa ser dito é que isso me deu motivo para estender minha estada por pelo menos mais um mês.

Fato interessante é que, nos dias em que o Tore saia para fazer alguma instalação ou serviço externo como encanador, acompanhei-o alguns punhados de vezes, os mais interessantes foi a instalação de uma pia, incluindo todo o encanamento de água e esgoto em um supermercado e uma instalação de móveis de banheiro.

Aos finais de semana não havia muito que fazer na cidade, assim o programa principal era ir até a casa de campo nas montanhas que ficava em meio às montanhas de um Fjord lindíssimo chamado Fiskefjord, que traduzindo seria o Fjord dos peixes. Lá passávamos dias bastante relaxantes em meio a toda aquela neve que era muito mais alta do que na cidade.


Da esquerda para a direita: Anne, Tore, Hauk Ivar e Torhild

Uma figura frequente que encontrávamos por lá era a Anne, irmã do Tore, e seu marido Hauk Ivar que era um cara muito legal, sempre falando da vida, cultura, costumes e culinária norueguesa. Também ele que tentou – sem sucesso, devo dizer – a esquiar.


Foi ele também que, junto ao Tore, me ajudou a desatolar o Snowmobile em todas as minhas tentativas de andar nele, é muito difícil, ainda mais na hora que eu caí em um buraco coberto de neve, ficamos mais de dez minutos extenuantes para tirar todo aquele peso do buraco, e conseguimos. Enfim, acho que esportes de inverno e brasileiros são mesmo incompatíveis.

Vale mencionar a linda paisagem de inverno daquela região:







Em uma dessas idas e vindas, acabamos atropelando um alce na estrada. Felizmente era um alce bebê, e o carro era grande, de outro modo, há um sério risco. O alce parecia bem, apenas não conseguia levantar. Chamamos as autoridades que não demoraram a enviar alguém. Imaginei que levariam o pobre alce ao veterinário para tratar dos ferimentos e devolvê-lo à natureza. Ledo engano: o alce acabou levando um tiro de escopeta.


O resultado ficou na estrada.


A razão principal para o meu retorno a esta região era ver as auroras boreais, que também valem um post. Só uma foto para dar um gostinho:


Depois de algumas semanas, recebemos a visita do Tom, apenas para aquele final de semana. Fui com a Torhild ao aeroporto busca-lo e foi um reencontro muito feliz e a alegria se estendeu por todo o final de semana, a começar pela festa que rolou naquela sexta feira mesmo, iniciada no bar, terminada na casa do Tom, com direito a black-out e ressaca máster. Foi triste vê-lo despedir0se do filho e partir a contragosto.

Após algumas semanas, passava a maioria dos dias em casa sem ter muito que fazer. Cansei de tanta preguiça e mandei algumas mensagens para o pessoal do CouchSurfing da região, e entre algumas respostas, recebi uma da Dorka, uma farmacêutica da Eslováquia, assim, os dias ficaram menos monótonos, visto que ela recebia frequentes visitantes. Em um final de semana, fomos a um local onde as tradições Sami (nativos da Escandinávia, relacionados aos esquimós e que viviam ali antes dos Vikings) acompanhados da Maria, uma russa muito engraçada, acabamos não vendo nada senão algumas renas, tiramos algumas fotos e fomos expulsos do local sob protestos da dona, que em geral cobra por fotos como aquelas.



No total foram quase dois meses ali em Sortland, ficar parado por tanto tempo teve um custo muito pesado, não financeiro já que o Tore nunca me deixou encostar em minha carteira, mas um custo pessoal. Eu já estava habituado à vida na estrada, cheia de aventuras e longe de qualquer rotina. Ficar tanto tempo parado significou colocar o meu projeto de vida na geladeira por este período e depois de algumas semanas eu estava sedento para cair na estrada novamente.