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Trabalhando na Noruega

16 de abril de 2012


Estava em Sortland esperando o meu grande parceiro Tom chegar e, como isso só iria acontecer em duas semanas, achei que seria legal tentar arrumar algum trabalho e quem sabe ganhar um dinheirinho. Segui a sugestão do Tore e da Torhild e fui até o porto, onde sempre precisavam de mão de obra.

Na CTG, uma das empresas que ficam por lá, entrei e localizei o Freddy, responsável pela descarga dos navios. Na conversa, ele não fez muitas perguntas, disse apenas para que eu voltasse mais tarde pronto para trabalhar, o salário era o equivalente a 22€ por hora, uma fortuna se compararmos com os 5€/h de Portugal.

Voltei às 16h, coloquei um macacão preparado para baixas temperaturas, capacete e uma bota de segurança que tomei emprestada de um colega romeno, essa bota possuía a parte da frente em metal, protegendo assim, meus preciosos dedos caso alguma coisa caia sobre o meu pé.

Segui a turma para dentro do navio, descemos uns dois andares passando por uma linha de produção. Neste barco, os peixes são pescados no mar e processados ainda dentro do navio onde são estocados em caixas de 20 kg no porão do navio à -20°C, e era nesse ambiente que trabalharíamos, retirando as caixas para pallets que seriam retirados do navio. De cara eu me assustei com a quantidade de caixas, demorou dois dias para uns 8 homens tirarem tudo.

Trabalhava comigo um cara, que me parecia africano e que era bem devagar, eu sei que não é legal, mas era difícil não rir da burrice dele. Não existe trabalho estúpido o suficiente para que pessoas estúpidas não o façam mal feito.

Naquele dia, trabalhei apenas seis horas, quase nada perto do que me esperava no dia seguinte quando trabalhei 14 horas, muito puxado, mas considerando os ganhos, valia o esforço, cada hora trabalhada representava um dia a mais de viagem em países como Índia ou Tailândia. Devido a exaustão do dia anterior, peguei um dia de folga e trabalhei mais 11 horas no dia seguinte que, interessantemente, foi muito, muito mais tranquilo, acho que meus músculos se adaptaram às condições de trabalho extremas.

Na próxima semana, liguei para o Freddy para ter uma ideia de quando seriam os próximos desembarques, ele disse que não havia previsão ainda, quando perguntei sobre como seria o pagamento ele disse-me que precisaria do cartão de impostos, só que para tirá-lo eu precisaria do contrato de trabalho, ele disse sem problemas, eu só precisava ligar no dia seguinte que ele resolveria esse imbróglio.

Liguei no dia seguinte, e nada de ele atender. No outro dia: nada, muito estranho. E assim foi por semanas e semanas, a minha paciência havia se esgotado, tentei ser legal com ele, mas aquela situação já estava ridícula.

Foi assim que em um certo dia comecei a ligar a cada cinco minutos até a hora que ele atendeu bastante impaciente:

– Olha, eu estou ocupado, quando for para te pagar eu te ligo – disse o Freddy.

– Freddy – respondi calmamente – eu já estou esperando sua ligação há mais de três semanas.

– Não é problema meu se você não tem os documentos para eu te pagar – disse ele cinicamente.

– Como não é seu problema? Para solicitar o cartão de impostos, preciso do contrato de trabalho que era de sua responsabilidade ter me dado antes mesmo de eu começar a trabalhar.

– Então tá, eu ia te pagar sem precisar de documento nenhum, mas já que você insiste, vou te fazer esse contrato, depois pra fazer o cartão leva uns dois meses, mas isso é problema seu. Amanhã vou estar em Sortland e eu te ligo para assinar o contrato.

Na verdade eu sabia que não demorava tanto e estava bastante tranquilo com relação a isso, desta forma, no dia seguinte só restou esperar, esperar e nada de ele ligar, que saco, vamos começar tudo de novo. Comecei a ligar novamente a cada cinco minutos e nada.

No dia seguinte, resolvi ir até a empresa que eu tinha trabalhado, encontrei um dos operadores de empilhadeira e fiquei sabendo que no dia seguinte eu poderia encontrar o Freddy, pois haveria um desembarque. Dito e feito, cheguei no dia seguinte e encontrei o Freddy com sua característica cara cínica.

– O que você está fazendo aqui? – disse ele, já meio agressivo.

– Vim saber como é que vou ser pago – respondi tentando manter a calma.

– Cadê o seu cartão de imposto? – como pode ser tão cínico?

– Como assim cadê o cartão, você sabe que para tirá-lo eu preciso do contrato que você disse que ia me dar.

– Sinto muito não posso te dar nenhum contrato agora, pois isso vai significar que eu ainda quero você trabalhando comigo, mas você é muito chato – e tenta segurar a vontade de pular no pescoço desse FDP.

– Esse contrato você deveria ter me dado antes de começar a trabalhar, era sua obrigação.

– Aquilo era uma experiência, mas você bagunçou tudo.

– OK, se você não quer me dar esse contrato eu serei obrigado a entrar em contato com a Fiscalização Trabalhista para ver o que eles acham disso – na Noruega, os fiscais de trabalho podem fazer a vida do empregador um inferno, mesmo que tudo esteja certo o que não era o caso. Bom daí ele começou a gritar:

– Se você não der o fora daqui imediatamente eu vou chamar a polícia.

– Ótimo, pode chamar, estou curioso para saber o que você vai dizer a eles.

– Que você não pode ficar na Noruega sem documentos.

Foi aí que percebi que o plano dele nunca foi de me pagar, ele achava que eu era um imigrante ilegal e obviamente, nunca conseguiria um cartão de impostos se fosse esse o caso, mas tinha um detalhe que eu nunca tinha falado para ele:

– Amigão, eu sou português, eu posso morar e trabalhar aqui o tempo que eu quiser.
Daí ele ficou putaço, me pegou pelo colarinho e me mandou sair dali, pois estava atrapalhando o andamento do serviço. Daí eu disse:

– OK, eu vou embora, mas antes de ir, eu vou falar para as pessoas daqui da CTG (ele era um prestador de serviços) o tipo de profissional que você é.

– Hahaha, eu dou risada de pessoas que tentam isso, você acha que eu estou preocupado.

Saí do depósito onde estávamos e entrei na primeira porta do escritório e perguntei à uma das pessoas ali para saber com quem eu precisaria falar para resolver o meu problema com o Freddy. Com isso, ainda estava na metade do discurso o Freddy apareceu e me puxou para fora da sala, gritando alto que eu não devia fazer aquilo etc.

Com o barulho desceu um cara do andar de cima, que fez o Freddy se acalmar, expliquei por cima a situação do contrato, eles trocaram algumas frases em norueguês, o Freddy abaixou a bola e me deu um papel com um telefone (que ele já tinha escrito) dizendo para que eu ligasse e resolvesse o problema.

Antes de sair olhei para ele e perguntei:

– Precisava de tudo isso para algo tão simples?

Liguei para o telefone, uma mulher atendeu, passei meus dados, 10 minutos depois encontrei o Freddy novamente para assinar o contrato, no qual ele me fez assinar sem dizer nenhuma palavra. Peguei o contrato, fui à central de impostos.

Uma semana depois o cartão chegou, falei com a mulher e fui pago no mesmo dia.

Com relação ao Freddy, nunca mais o vi, mas ele terá uma surpresa quando os fiscais trabalhistas aparecerem por lá. Bwahahaha!

Ainda mais sorte em Sortland

25 de março de 2012



Voltar ao ártico no inverno era uma promessa que eu fiz a mim mesmo quando saí de lá no verão. Encontrar o Tom seria reencontrar um grande amigo, porém as mensagens que enviei a ele, de uma hora para outra, não retornavam. O Tom estava incomunicável, por razões que não valem a pena serem citadas aqui. Acabei, desta forma, escrevendo a seus pais que se prontificaram a me receber e, coincidentemente, chegariam de viagem exatamente no mesmo dia que eu e no mesmo aeroporto.

O Tore e a Torhild me receberam como um filho em uma estadia que se estendia semana após semana.
A Torhild é enfermeira e trabalha diariamente, uma senhora muito inteligente com quem sempre tive conversas estimulantes e profundas. Sempre fazendo o possível para que eu me sentisse em casa, o que aconteceu depois de alguns dias, me fazendo até me sentir um pouco culpado.

O Tore é um encanador experiente que desde jovem deu vazão à suas aspirações empreendedoras e, com grande sucesso, criou uma rede de lojas de decoração. Apesar da nossa diferença de idade, nos tornamos grandes amigos desde os belos dias de verão, no qual tomamos junto um porre regado a muito vinho e jogo de xadrez.

Tore e sua filha Tove em sua loja

A hospitalidade foi imensa, o conforto nem se fala, além de uma cama confortabilíssima, havia um banheiro só para mim, nesse banheiro tinha uma sauna e o exagero: uma banheira de hidromassagem. Esse último detalhe me fez cair na risada em quanta, quanta sorte eu tinha.


A semana corria tranquila quando recebemos a notícia de que o Tom, grande comparsa, estaria na cidade em duas semanas. Foi essa a primeira desculpa para estender a minha estada.

Bem, já que vou ficar aqui por duas semanas, talvez valha a pena arrumar um emprego. Foi o que eu fiz, com consequências tão complicadas que vai ganhar um post só para isso, mas o que precisa ser dito é que isso me deu motivo para estender minha estada por pelo menos mais um mês.

Fato interessante é que, nos dias em que o Tore saia para fazer alguma instalação ou serviço externo como encanador, acompanhei-o alguns punhados de vezes, os mais interessantes foi a instalação de uma pia, incluindo todo o encanamento de água e esgoto em um supermercado e uma instalação de móveis de banheiro.

Aos finais de semana não havia muito que fazer na cidade, assim o programa principal era ir até a casa de campo nas montanhas que ficava em meio às montanhas de um Fjord lindíssimo chamado Fiskefjord, que traduzindo seria o Fjord dos peixes. Lá passávamos dias bastante relaxantes em meio a toda aquela neve que era muito mais alta do que na cidade.


Da esquerda para a direita: Anne, Tore, Hauk Ivar e Torhild

Uma figura frequente que encontrávamos por lá era a Anne, irmã do Tore, e seu marido Hauk Ivar que era um cara muito legal, sempre falando da vida, cultura, costumes e culinária norueguesa. Também ele que tentou – sem sucesso, devo dizer – a esquiar.


Foi ele também que, junto ao Tore, me ajudou a desatolar o Snowmobile em todas as minhas tentativas de andar nele, é muito difícil, ainda mais na hora que eu caí em um buraco coberto de neve, ficamos mais de dez minutos extenuantes para tirar todo aquele peso do buraco, e conseguimos. Enfim, acho que esportes de inverno e brasileiros são mesmo incompatíveis.

Vale mencionar a linda paisagem de inverno daquela região:







Em uma dessas idas e vindas, acabamos atropelando um alce na estrada. Felizmente era um alce bebê, e o carro era grande, de outro modo, há um sério risco. O alce parecia bem, apenas não conseguia levantar. Chamamos as autoridades que não demoraram a enviar alguém. Imaginei que levariam o pobre alce ao veterinário para tratar dos ferimentos e devolvê-lo à natureza. Ledo engano: o alce acabou levando um tiro de escopeta.


O resultado ficou na estrada.


A razão principal para o meu retorno a esta região era ver as auroras boreais, que também valem um post. Só uma foto para dar um gostinho:


Depois de algumas semanas, recebemos a visita do Tom, apenas para aquele final de semana. Fui com a Torhild ao aeroporto busca-lo e foi um reencontro muito feliz e a alegria se estendeu por todo o final de semana, a começar pela festa que rolou naquela sexta feira mesmo, iniciada no bar, terminada na casa do Tom, com direito a black-out e ressaca máster. Foi triste vê-lo despedir0se do filho e partir a contragosto.

Após algumas semanas, passava a maioria dos dias em casa sem ter muito que fazer. Cansei de tanta preguiça e mandei algumas mensagens para o pessoal do CouchSurfing da região, e entre algumas respostas, recebi uma da Dorka, uma farmacêutica da Eslováquia, assim, os dias ficaram menos monótonos, visto que ela recebia frequentes visitantes. Em um final de semana, fomos a um local onde as tradições Sami (nativos da Escandinávia, relacionados aos esquimós e que viviam ali antes dos Vikings) acompanhados da Maria, uma russa muito engraçada, acabamos não vendo nada senão algumas renas, tiramos algumas fotos e fomos expulsos do local sob protestos da dona, que em geral cobra por fotos como aquelas.



No total foram quase dois meses ali em Sortland, ficar parado por tanto tempo teve um custo muito pesado, não financeiro já que o Tore nunca me deixou encostar em minha carteira, mas um custo pessoal. Eu já estava habituado à vida na estrada, cheia de aventuras e longe de qualquer rotina. Ficar tanto tempo parado significou colocar o meu projeto de vida na geladeira por este período e depois de algumas semanas eu estava sedento para cair na estrada novamente.