De Fez a Merzouga: Uma aventura digna de nota

17 de maio de 2011

Saí de Fez para uma viagem noturna para o deserto, a cidade Merzouga. O motivo para eu ter escolhido esta cidade foi pelo fato de eu ter entrado em contato com um local pelo site CouchSurfing (que, aliás, recomendo) e este me ofereceu hospedagem gratuita com sua família.
O ônibus saia de Fez e eu precisaria fazer duas escalas, uma em Errachidia e em seguida pegar um taxi em Rissani. Existem duas categorias de ônibus de viagem, os para turistas: limpos, organizados e com ar condicionado; e o tipo de ônibus que peguei: quentes, sujos e lotados. Para se ter uma ideia, quando o bagageiro encheu, as bagagens foram sendo colocadas no corredor, algumas pessoas sentadas em cima, por não haver lugar para todos, sem contar as pessoas que ficaram de papo até as 5h da manhã.
Chegamos em Errachidia, hora de descobrir como chegar em Risssani. Havia um taxista esperando lotar o taxi e levar-nos diretamennte até Merzouga, chegou dizendo que comigo só faltavam 2, cheguei lá e eu era o único, ainda faltavam 5. Esperei, esperei e nada. Quando deu o horário do ônibus desencanei do taxi.
Chegando no ônibus para Rissani, legal, todos os lugares ocupados. Nesse momento surgiu uma mão salvadora que arrumou um lugar pra mim perguntando em árabe para todos os passageiros por lugares livres. Era uma charmosa marroquina que viajava acompanhada de um homem muito gentil e que apesar da barreira linguística (ela não falava inglês e eu não falo francês) me ajudou muito. Descobri, por linguagem de sinais, que o homem que a acompanhava era o seu irmão, e que ela apesar de Marroquina morava na França havia alguns anos.
O caminho se faz por estradas que cortam o deserto.

A surpresa foi um canion, no meio do deserto, e dentro dele, um oásis com uma densa cobertura de árvores.



Chegando em Rissani, descobri ainda que iríamos para o mesmo destino, e com isso acabamos compartilhando o mesmo taxi. Enquanto o taxista procurava mais passageiros, eu tentei procurar um lugar para telefonar àquele que iria e hospedar, porém não consegui. Quando voltei, já estavam todos no taxi me esperando. Quando eu ia me sentar, bastava eu abrir a porta e sentar ao lado dela, mas aqui é o Marrocos, ela levantou, o irmão dela também, eu sentei, seu irmão e ela sentaram em seguida. Só familiares podem encostar em mulheres marroquinas, ao que eu entendi.
A paisagem fora do taxi era uma coisa fora do sério.

O taxi parou em frente a um hotel à alguns quilômetros do meu destino e nós nos despedimos.
Chegamos finalmente à Merzouga, uma cidade que parece palco de filmes de faroeste, quase ninguém nas ruas de terra. Comprei um cartão telefônico e liguei para o meu colega. Eu precisaria pegar um transporte para uma vila que eu mal conseguia pronunciar o nome. Fui de moto, ou melhor, sentado na garupa de uma mobilete muito velha.
Chegando lá, havia um rapaz me esperando, me perguntou se eu era do CouchSurfing, confirmando, ele me levou até a casa do Said e surpresa, ficava exatamente em frente ao Hotel em que estava a minha salvadora marroquina, uma pena que não a encontrei novamente.
Olha só a vista da casa que me hospedei gratuitamente:

A aventura de Fez a Merzouga:

Os mil aromas de Fez

16 de maio de 2011

Acordei cedo aquela manhã, li em várias fontes de que as ruas da Medina de fez eram um labirinto enorme, e que se quiser explorá-la decentemente vc precisará de tempo. Bem, tempo eu tinha, mas nada que eu pudesse ter lido poderia me preparar para aquele dia.
Ainda era muito cedo e os comerciantes que lotam as ruas de fez ainda não haviam montado suas barracas de frente ao hotel, isso foi bastante relevante naquele momento, uma vez que quando voltei, tive uma tremenda dificuldade em encontrar o hotel: a rua havia mudado completamente.



A primeira coisa que chama atenção nas ruas da medina de Fez é a bagunça absoluta, a competição ferrenha por espaço deixa todas as ruas muito estreitas. Lembram-se de eu comentando quão estreitas eram as ruas do centro histórico de Barcelona? Aquilo não é nada comparado a Fez.
Existem ruas que de tão estreitas, nós temos de passar de lado, outras ainda, temos que nos curvar para passar. A bagunça é tanta, que o único lugar comparável que me veio à mente são as favelas.


Por volta das dez horas da manhã as ruas de Fez são tomadas por comerciantes, existem comerciantes de tudo o que podemos imaginar. Frutas e legumes, que diariamente fazem com que as ruas pareçam feiras livres. Açougueiros que, sem o luxo de refigeradores, expoem, cortam e vendes suas carnes de maneira não muito higiênica. Frequentemente alguém interrompe nossa caminhada com sussurros da palavra "Haxixe".
Mas de todos os comerciantes são os de especiarias que fazem das ruas de Fez incomparáveis. Os árabes por milhares de anos centralizaram todo o comércio e distribuição de temperos e especiarias no mundo. Isso fez com que eles se tornassem os maiores especialistas de todos os povos, e é nas ruas de Fez que podemos sentir isso na pele, ou melhor, pelo olfato.
O cheiro das ruas de Fez, fazem desta a qualidade mais marcante da cidade. Em cada lugar, que entramos há um cheiro diferente e único.

Naquele primeiro dia, enquanto andava perdido pela Medina, vi um grupo enorme de turistas saindo por uma portinha escura, decidi entrar e investigar. Era uma fábrica de tecidos que utilizava teares manuais para a produção de lindos véus e tecidos, o processo deve ser o mesmo por milênios.

Em seguida um garoto me abordou na rua perguntando se eu gostaria de conhecer gratuitamente o curtidouro, local onde é fabricado couro. Tinha ouvido falar e decidi ir, desconfiado.
O local é tão fedido que eles nos oferecem folhas de hortelã. O processo utilizado é também o mesmo de alguns milênios atrás, para obter amônia eles utilizam cocô de pombo, daí o aroma agradabilíssimo.
Apenas corantes naturais

E sim, pessoas trabalham enfiadas no cocô de pombo

Na saída, como nada é gratuito em Fez, me levaram para conhecer os produtos acabados. Jaquetas, bolsas, chapéus, nada me interessou realmente. Perguntei o preço de uma bolsa para carregar o passaporte cêmera e celular, o preço 70 €. Muito caro, e eu nem tinha gostado... Decidi sair sem nada. O povo lá se tornou MUITO agressivo, achei que ia apanhar, sério. Saí de lá correndo.
No dia seguinte segui um roteiro de caminhada dos templos e palácios, que terminava em um lindíssimo parque ao lado da Medina.

Mais tarde, fui em algumas ruínas do lado de fora da medina, e de lá podia-se ver a Medina inteira.

Roteiro do primeiro dia de Fez:


Segundo dia em Fez:


De Fez segui viagem para Merzouga, uma cidade de frente para o Saara marroquino, com as maiores dunas daquele país.

De Fez a Merzouga:

Sangue na Plaza de Toros

5 de maio de 2011


A tourada é um esporte cujas tradições remontam milênios, acredita-se que tenha começado com os Celtas e seus sacrifícios rituais de touros. De todos os animais que os antigos conseguiam domar, o touro era o que dava mais trabalho, eles são muito agressivos e perigosos, é necessário castrá-los para que eles se tornem os bois dóceis que vemos nas fazendas.
Os touros, indomáveis se tornaram, portanto, um símbolo de poder incontrolável da natureza. Assim, a Tourada representa o controle da natureza, o homem contra a fera, a inteligência contra a força bruta.
O espetáculo em si é muito belo, um tanto quanto selvagem e sangrento, mas ainda assim, belo.
Inicialmente existem vários participantes, os chamados subalternos, que possuem a função de cansar o touro.


Após alguns instantes, entra na arena o Picador, um homem montado em um cavalo fortemente protegido que, usando uma lanca dá um golpe no touro para que se evite que este levante demais a cabeça colocando em risco a vida do toureiro.

Em seguida é a hora dos Banderilleros fazerem a sua parte. Sem utilizar a muleta (o pano vermelho), eles cravam bandeirinhas no touro com a finalidade de demonstrar sua braveza em ser o alvo direto do touro.
A partir deste momento inicia-se o "baile" entre o toureiro e a fera.

Quando o touro está mais cansado, é a hora do golpe final. Com uma longa espada, o toureiro chama a atenção do touro com a muleta baixa, quando o touro vem, ele crava a espada até o fim.


Em poucos instantes o touro tomba, e depois de definitivamente morto, tem suas orelhas cortadas e oferecidas ao toureiro que as expõe como um troféu.

Há, hoje em dia uma certa polêmica quanto o futuro das touradas. As sociedades protetoras do animais avançam pouco a pouco para acabar com as touradas, inclusive, já conseguiram proibí-las na região da Catalunha (onde fica Barcelona), é claro que a tradição das touradas em terras catalãs não é nem de perto parecida com a tradição na região da Andaluzia.

Após mortos, os touros são levados para açougues onde a sua carne, dura pelo que me falaram, é vendida a preços altos.

Na saída, encontrei o toureiro das fotos acima:
Muito gente fina, por sinal.

Chiclana de la Frontera: Muito mais da Espanha

Saindo do Cabo de São Vicente, fiz escala em Lagos e de lá saí direto para Chiclanna de la Frontera, uma viagem de pouco mais de 10 horas, demorada mais do que o necessário devido às diversas paradas.
A Espanha é, na verdade, país com um amontoado de diferentes culturas, existem os Castelhanos, Catalães, Bascos e Andaluces. A Região de Andaluzia, onde fica Chiclana, é onde encontramos as tradições mais conhecidas internacionalmente como sendo tradição Espanhola, entre as mais conhecidas estão as touradas e o flamenco.
Encontrei aqui a Karina, uma prima em primeiro grau que mora na Espanha há quase 22 anos. Nos conhecíamos apenas por Internet, já há uns 3 anos, nunca nos vimos pessoalmente, este era, portanto, um encontro há muito esperado. O plano era ficar alguns dias com ela e com seus dois filhos, Álan (11 anos) e Lucca (9 anos), dois levados garotos que entendem português mas tem no castelhano a sua primeira língua.

A Karina e seus dois garotos vivem em um confortável apartamento, grande o suficiente para me receber sem grandes preocupações.
Cheguei em uma quinta-feira à noite, na sexta fomos com as crianças a um parque, um programa bastante calmo, calmo pois no dia seguinte o plano era de muita agitação. Primeiro um show de um amigo brasileiro da Karina e depois balada.
Neste passeio, acompanhou-nos a Bella (que até agora não conssigo pronunciar direito) uma espanhola animadíssima que além de dançar como doida se diverte fazendo duetos com a Karina daquela música "Tou nem aí" com um sotaque que entrega a sua não brasilianidade. A Balada foi inteiramente gratuita, graças aos ótimos contatos que a Bella tem. Ah, esqueci de dizer, a Bella é MUITO gata.
No domingo, a programação era mais tradicional: Tourada!!! O próximo post vai ser sobre isso.
Durante a semana, a Karina trabalha e as crianças a deixam louca para ir à escola. Aproveitei para ir a Cádiz, uma cidade praiana a alguns quilometros de Chiclana, que além da bela paisagem possui parques e praias bem legais.



Aproveitei também a semana para ir à praia. Detalhe importante das praias espanholas, quase todas as mulheres fazem Top Less... Para nós, homens brasileiros, que não estamos acostumados com toda essa liberdade, é difícil não fazer aquela cara de UAU, mas depois do décimo, a gente já se acostuma. Que me desculpem os leitores mais animados, mas não tirei nenhuma foto.



Fui até a Praia de Sancti Petri, que tem esse nome devido ao castelo com o mesmo nome, localizado em uma ilha bem em frente a esta praia. Neste castelo, existe o Templo de Hércules que, segundo a lenda, é o lugar onde Hércules foi enterrado. O castelo é tão perto que é possível chegar lá tranquilamente a nado, só não o fiz por dois motivos: a água é muito gelada e eu não estava com trajes próprios ao banho.
Trajes impróprios para banho.

Poseidon

No dia seguinte, quarta-feira, fui acompanhar o Guillermo, radialista amigo da Karina, a um debate na Câmara dos Vereadores de Chiclana, sim, falta do que fazer, mas foi bem interessante nos momentos que eu estava acordado. Política é a mesma em todo lugar... Os partidários do governo concordam com tudo, os da oposição discordam de tudo, parece que nem prestam atenção no que é dito.

Na sexta a noite teve um show de Copla, um estilo característico de música espanhola que possui, em geral letras tristes e melancólicas que me lembrou muito o fado português.

Mas o melhor da noite foi o grupo de dança flamenca, foi demais.

No sábado, teve festa na casa da Karina, fui comprar com o Claudio, um chilenno muito gente fina, os ingredientes para o "Completo", um cachorro quente com um ingrediente muito inusitado, pasta de abacate, pior que é bom pacas. Infelizmente, a festa aconteceu no mesmo momento que aconteceria um show de flamenco, eu tinha que ir...


O flamenco é, além da conhecida dança, um estilo musical muito característico. Muito parecido com os famosos Gipsy Kings, e neste show que fui, estava tocando um dos mais conhecidos guitarristas de flamenco: Paco Cepero, é, eu também não conhecia, mas a casa estava cheia e a apresentação foi fantástica.. Abaixo um trecho que gravei.

Aproveitei pra tirar uma foto com os caras, muito legais, aliás.
Paco me contando como foi tocar em Copacabana há 5 anos.
Os trajetos:

O passeio em Cádiz


Sancti Petri e La Barrosa

Na estrada para o fim do mundo: Lagos e Sagres

1 de maio de 2011

O passeio de hoje começa em Lagos, a cidade maiorzinha que fica mais próxima do Cabo de São Vicente. Cheguei lá no dia anterior, vindo de Évora. Desci do ônibus, e fui abordado por um rapaz perguntando se precisava de hospedagem, como o preço era bom, e eu ainda teria que procurar por algo, acabei ficando com ele mesmo. O hostel era bem bonitinho e arrumado, saí de noite para conhecer a cidade e tirar algumas fotos.

Voltei logo pro Hostel pois o meu pé tava me matando.

Eu tinha duas bolhas recém tratadas, uma em cada dedinho. O tratamento é muito simples, pega-se uma agulha de costura, e linha. Passasse a agulha pela olha com a linha, entrando por um lado e saindo pelo outro. É importante deixar a linha lá. Depois de alguns dias, tira-se a linha e espera a bolha secar. Ao fim, você terá um lindo calo que não vira bolha tão cedo.

No dia seguinte acordei cedo, umas 6:30, precisava pegar o ônibus das 7:15 com destino a Sagres. A caminhada até a rodoviária foi traquila apesar do frio daquela manhã. o ônibus me deixou no centro de Sagres, e após perguntar para algumas pessoas, minha suspeita foi confirmada: a única maneira de chegar ao Cabo de São Vicente era caminhando. Algo em torno de 7 km, só tinha um porém... Com a minha mochila de uns 10 kg, nas costas, excelente.

Durante a caminhada, que legal: um arco-íris. Não demorou até eu me lembrar que arcos-íris aparecem pela dissipação da luz do sol em gotas de... Chuva! E o caminho ainda estava muito longo.
Ótimo momento para começar a pedir umas caronas. Ninguém parou. Andei, andei, andei até chegar em um lugar coberto, nesse momento eu já estava encharcado, mas poderia ficar pior.
A chuva enfraqueceu, e continuei. Tive o agradável encontro com o fotogênico caracol que abre o post enquanto já podia ver o farol de São Vicente. De fato, ele me serviu de consolo pois o caminho para ele era muito maior que o meu.
Depois de uma hora caminhando em baixo de chuva, com uma mala de 10 kg nas costas, cheguei ao farol e a chuva parou, ódio... Pelo menos a paisagem era línda:



O que são esses pontinhos pretos no alto do penhasco? Turistas!

Esse penhasco é o mesmo que aparece na foto de cima.

O Cabo de São Vicente era tido pelos romanos, como o último ponto a sudoeste e até o o século XV era considerado como o Fim do Mundo. Foi na cidade de Sagres que se iniciou, com o nobre Infante D. Henrique, a era das grandes navegações portuguesas, e muitas das embarcações que chegaram ao oriente e ao ocidente.
Foi do Cabo de São Vicente que eu, como muitos dos antigos navegantes, me despedia da bela pátria de Portugal, com a esperança de poder voltar um dia.

Os trajetos foram:
Évora para Lagos


Lagos para Sagres e Cabo de São Vicente


Sagres para Chiclana de la Frontera