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Palestina: A hospitalidade de um povo sofrido.

15 de novembro de 2011


Primeira coisa que vi quando cheguei na Palestina

A aventura começou na carona que pegamos ainda em Jerusalém com destino a Ramallah, eram dois rapazes palestinos que desviaram muito do caminho para nos levar até o posto de checagem que separa a fronteira entre os dois países.

Bem, países é modo de dizer, a Palestina ainda não é um país reconhecido. O rolo é complicado e antigo. Começou em 1948 com a decisão da ONU na criação de dois estados, Israel e Palestina, a decisão foi atendida pela metade apenas, criou-se Israel, mas não o Estado palestino, o qual foi ocupado e diminuindo pouco a pouco sendo hoje muito, muito menor do que o inicialmente previsto, além do fato, é claro, que a autonomia palestina ainda não foi reconhecida.

A passagem pelo posto de fronteira foi bastante tranquila, só haveria problemas no caminho de volta, afinal, ninguém liga quem entra na Palestina, mas palestinos não podem ir a Jerusalém, ou a qualquer parte do território de Israel, sem uma permissão especial que precisa ser renovada mensalmente. Além disso, é necessário passar por um sistema de segurança parecido com aquele que vemos em aeroportos, e as filas podem levar muitas horas, um problema que aqueles que trabalham em Jerusalém precisam enfrentar diariamente.

O muro da vergonha (do Google Images)

Sair de Israel e chegar à Palestina é muito mais do que andar alguns quarteirões. A diferença é muito marcante, começa na forma como as pessoas nos olham e nos tratam. Já de cara nos foi oferecida ajuda, nos colocaram no ônibus que iria ao centro de Ramallah, nos emprestaram o telefone para ligar ao nosso contato do CouchSurfing.

Encontramos o Emad, um repórter de 30 anos que retornou a não muito tempo da Algéria onde estudava. Inicialmente nos levou a uma partida de Street Hockey que rolava ali perto e contava com um grupo bastante heterogêneo de pessoas de vários países, a maioria repórteres e estudantes. Os palestinos que lá estavam eram em sua maioria militantes para a independência da Palestina, de um deles ganhei um adesivo escrito "State of Palestine", colei-o imediatamente em meu computador.

Na casa do Emad, conhecemos a mãe e o cunhado do Emad, um médico que trabalha em uma organização humanitária na faixa de Gaza, conversando com ele, por pouco não acabei indo para Gaza trabalhar como voluntário, só não o fiz pois para a entrada é necessário um visto especial que não parece muito simples de conseguir. Com ele, ouvi bastante sobre a situação precária que se vive em Gaza, e que se não fossem os voluntários e pessoas fazendo o trabalho que ele faz, as coisas seriam muito piores.

De um dos colegas de apartamento do Emad, ouvi a história de um garoto de 11 anos que fora preso por atirar uma pedra em um soldado israelense. A pena, segundo ele, foi de dez anos. Dez anos por causa de uma pedra, pode até parecer exagero, mas dada as circunstâncias que vi, acho bem possível.

Crianças tirando uma com o soldado israelense (do Google Images)

Naquela mesma noite fomos tomar algumas cervejas e acabamos convidados a uma festa particular com um artista e político que tinha boa lábia e militava pela independência palestina, o problema é que, a meu ver, ele exagerava muito ao afirmar, por exemplo, que havia palestinos infiltrados em todos os governos e que em breve eles dominariam o mundo, coisas do tipo.

Alguns dias depois, fui às cidades de Bethlehem, conhecida no Brasil como Belém, e fui claro, à igreja construída no local onde supostamente Jesus teria nascido. A cidade era forrada de turistas em todos os lugares e havia uma fila enorme para entrar e tocar no monumento posto no local "exato" onde Jesus nascera.

Fui também, no mesmo dia, à cidade de Hebron, local onde há um assentamento judaico no meio de uma cidade palestina. É um lugar muito triste, pois demonstra claramente a o uso da força utilizado por israelenses para ocupar, ilegalmente de acordo com a ONU, uma cidade palestina. Isso me fez questionar que tipo de pessoa deixa o conforto de uma cidade como Jerusalém ou Tel Aviv para morar em meio ao território "inimigo" e viver sob constante estado de stress e vigilância de soldados israelenses.

Bloqueio separando o lado Palestino do Israelense.

Eu seguiria viagem para o Egito e a Mariana decidiu ficar por lá. A nossa relação havia se deteriorado muito desde que saímos de Jerusalém e mal nos falamos durante todo o tempo que passamos na Palestina. Sinceramente me senti aliviado ao saber que continuaria a viagem sozinho, viajar com ela naquele momento estava sendo muito mais um fardo do que prazeroso.

Fui até Jerusalém, onde precisava enviar alguns itens religiosos ao meu tio no Brasil por correio, foi quase uma hora para passar no controle de fronteira e quando me preparava para entrar na cidade antiga, fui abordado por um policial, que em Jerusalém sempre andam acompanhados por um soldado carregando um fuzil.

O policial perguntava o básico: Tem armas?. Não. Maconha? Não. Cigarro? Não. Tem uma faca?... Sim tenho.

Pronto, percebi nesse momento que teria problemas. Se eu dissesse que não, talvez ele me liberasse e pronto, mas se resolvesse revistar minha mala e encontrasse uma faca, que utilizo em acampamento, eu teria muito mais problemas. A faca era ridiculamente pequena, mas israelenses são totalmente neuróticos e aquela faquinha representava um risco para o Estado de direito e, por isso, acabei sendo levado à delegacia para prestar esclarecimentos.

No final acabei perdendo várias horas na delegacia e acabei sendo liberado. Na saída, o segurança da entrada era brasileiro do Pará, e quando disse que eu teria que ficar em Jerusalém naquela noite pois perdi o ônibus para o Egito, ele disse que eu deveria tomar cuidado? "Não é porque sou judeu não, mas esses árabes são perigosos". Deu vontade de questioná-lo quantos árabes ele havia conhecido que não estavam na mira de sua arma? Eu estava havia mais de um mês convivendo com árabes e podia afirmar com absoluta certeza que há poucos povos mais generosos e gentis do que os árabes. Em poucos países pode-se andar por ruas escuras com tanta segurança quanto em países árabes, que apresentam em muitos casos, índices de criminalidade semelhantes a países de primeiro mundo. E sim, ele estava falando aquilo só porque era Judeu e ouvia todo tipo de bobagens sobre árabes desde que nasceu.

Bem, passei a noite em um hostel, de um árabe, e desnecessário dizer que foi tudo bem. No dia seguinte, finalizado o envio dos materiais para o Brasil, segui viagem para o Egito. A primeira parada teria de ser Eilat que era uma viagem relativamente longa e com poucas opções de horários. Conclusão: cheguei lá tarde da noite e precisei passar uma noite por lá também. Segui para a fronteira no dia seguinte.

Parece estúpido o sistema que eu tinha que fazer: voltar à Jordânia e de lá pegar uma balsa para o Egito sendo que há uma fronteira entre o Egito e Israel, porém essa era a melhor forma de evitar problemas futuros.

Uma visita a Israel, faz com que sejamos proibidos de entrar em diversos países árabes. Mesmo sem o carimbo de Israel no passaporte, é possível descobrir que se esteve lá pela falta de carimbos de saída de países vizinhos, como era o caso da Jordânia. Assim, o sistema seria: Sair da Jordânia sem carimbo, entrar e sair de Israel sem carimbo, voltar para a Jordânia sem carimbo e então, pegar o carimbo no passaporte quando sair da Jordânia para o Egito, assim, eu teria apenas um carimbo de entrada e um carimbo de saída para o Egito, sendo assim impossível saber que estive em Israel.

Na fronteira conheci um casal de senhores que estavam tendo problemas com a língua. Eles não falavam inglês e estavam apanhando muito para viajar naquelas condições. Ajudei-os traduzindo o que os oficiais de fronteira diziam e no final ajudei a negociar o preço do taxi.

Na fronteira da Jordânia existem vários taxistas e um "gerente", encarregado de negociar valores. Eu já imaginava que o preço seria astronômico e eu estava disposto a negociá-lo para os meus hermanos argentinos. O problema é que o cara não queria negociar e começou a gritar quando eu falava que aquele preço não era justo. Por fim, o casal que queria ir para Petra, uma viagem de uns 200 km e que poderia custar uns 50€, estava sendo cobrada 80€. Assim o casal se convenceu a ir à rodoviária pegar um ônibus e pagar menos de 15€ mais 10€ do táxi (que seriam 4€ sem a máfia). O cara ficou puto, mas não tinha o que fazer. No táxi, o taxista era muito mais flexível e acabou concordando em levar o casal por 40€, desta forma o casal concordou e seguiram viagem para Petra e todos ficaram felizes no final, deixaram-me na empresa que de balsas para o Egito.

De lá, fiquei sabendo que haveria uma balsa naquele dia às duas horas e que eu teria que comprar o bilhete em outro lugar. Encontrei um motorista que me levaria até lá por 4€, um preço bastante justo. Comprei o bilhete e perguntei o horário da balsa, ele perguntou em árabe e voltou dizendo que tínhamos que nos apressar. Cheguei lá, correndo e descobri que a balsa sairia apenas à 1 da manhã. O cara sabia disso, mas sabia também que eu não iria ao porto para ficar lá por 12 horas e ele perderia os 4€ combinados, então ele me fez seguir até o porto, ganhou o seu dinheiro, para que eu descobrisse que a viagem seria muito depois...

Acabei ficando por 12 horas no porto, pelo menos descobri um sinal de internet livre.

PS. Desculpem a demora, meu computador foi roubado (e não por um árabe) o que me levou ao atraso e também explica a falta de fotos neste post. Vou normalizar a situação o mais rápido que puder.

Damasco: Unidos para a mudança

11 de outubro de 2011



Fui a Damasco acompanhado da Mariana que ainda estava insegura com relação à situação na Síria. A passagem pela fronteira da síria com o líbano, foi bem mais tranquila do que a passagem pela fronteira com a Turquia. Ali, a Mariana também precisava de um visto e o conseguiu com tranquilidade, bem mais simples do que com o japonês na fronteira com a Turquia.

Passados os processos, chegamos em Damasco e fomos ajudados por uma passageira que veio conosco no taxi. Ela pegou um taxi conosco até um parque onde esperaríamos o Hassan*, o nosso host do couchsurfing em Damasco. Enquanto esperávamos, ela gentilmente nos trouxe comida e bebida, um amor de pessoa.

Em seguida chegou o Hassan, e não demorou para começarmos a ficar assustados com ele. Enquanto estávamos na Síria, queríamos ficar o mais longe possível de problemas, e no caso do Hassan, ele disse estar diretamente envolvido nos protestos inclusive tendo sido preso por mais de três vezes. Nós que queríamos ficar o mais distante possível dos problemas, de repente estávamos no carro com um dos problemas.

Ele nos levou para um apartamento meio sujo e bagunçado bastante afastado do centro da cidade. Disse-nos que não era seguro sair naquele momento pois poderiam haver checkpoints e ele não queria ter problemas, então ficamos de papo no apartamento até umas 6 horas quando fomos visitar a cidade.

Durante o papo ele nos disse como se inicaram os protestos, que inicalmente eram apenas por mais justiça social, e de como tudo poderia acabar com o primeiro discurso do ditador, que era bastante popular na época, e que se tivesse pedido desculpas e promovido algumas reformas simples (menos corrupção policial, por exemplo) a situação na Síria estaria próxima da normalidade. Ao invés disso, o ditador preferiu mostrar como continuava dominando e como tudo estava normal. Isso enfureceu os mais jovens e a situação chegou no ponto em que se encontra hoje com gente morrendo quase diariamente em protestos em várias cidades do país.

Ao final demos um passeio pela cidade que lembra muito outras cidades árabes, principalmente pelo mercadão no centro e pela deslumbrante mesquita principal. Na mesquita, não islâmicos são obrigados a pagar uma taxa paa entrar, o Hassan deu a ideia de fingirmos ser islâmicos, para isso era só entrar na mesquita, tirar os sapatos e não falar com ninguém, foi o que fiz e funcionou, a Mariana teve mais problemas, afinal, suas roupas não eram muito condizentes com o estilo de mulheres muçulmanas.




Mais tarde fomos jantar em um restaurante barato, tomar chá e fumar narguile antes de voltar para casa.

Nem eu nem a Mariana tínhamos dinheiro e ficamos na mão do Hassan, que pagou por tudo dizendo-nos para pagá-lo depois. Dizia que não iríamos encontrar casa de câmbio, que as máquinas estavam quebradas etc. E por isso não tínhamos escolha, o único dinheiro que eu tinha eram Liras Libanesas que ele levou para trocar em algum lugar perdendo neste caso 30% do valor original, considerando também as contas suspeitas que ele fez do primeiro dia, fiquei com a impressão de que perdemos dinheiro com ele.

No dia seguinte, o Hassan não queria sair de casa pois era sexta-feira, principal dia de protestos e quando a polícia fica mais cuidadosa colocando controles por toda a cidade. Eu, queria voltar à cidade velha durante o dia e resolvi ir sozinho.

Peguei ônibus, taxi, e caminhei uma porrada, chegando lá a cidade inteira estava fechada porque era sexta-feira. Por acidente acabei passando pela sede do governo Sírio, pude ver vários seguranças empunhando armas pesadas para proteger os prédios do governo. Foi uma visão bastante intimidante, afinal não haviam muitas pessoas caminhando por aqueles lados.

Enfim cheguei à cidadela, a primeira coisa que fiz foi ver a tumba do Sultão Saladino, aquele que reconquistou Jerusalém e pôs fim às cruzadas.

Depois fui caminhando pela cidade e vi um grupo de moradores locais jogando pebolim, ah eu não resisti, e graças aos meus dias de Roche Diagnótica, nos quais eu jogava todos os dias, eu até que jogo bem, bem demais para os padrões Sírios. Fiz vários gols que deixaram eles bastante impressionados. Quando descobriram que eu era brasileiro, encontraram aí a explicação que queriam para as minhas habilidades pebolísticas.

Mais tarde encontrei a Mariana e o Hassan, junto deles estava uma amiga do Hassan que era muito gente fina. No caminho para uma montanha de vista panorâmica da cidade, ela me ensinou ccomo contar de 1 a 10 em árabem o que foi bastante útil.


Mais tarde ficamos de papo com um grupo de amigos do Hassan que eram uns figuraças. O assunto principal eram as revoltas e como todos eles estavam diretamente envolvidos nos protestos. Um detalhe que me chamou a atenção foi ver como os garis agiam para tentar espionar os papos do pessoal. Em meu penúltimo post sobre a Síria, comentei sobre a paranóia em torno de Garis e de taxistas, e agora pude ver como de fato eles agiam.

Primeiro que pareciam estar interessados na limpeza apenas da área em que conversávamos. Chamava atenção para a ineficiência de sua limpeza, até eu podia varrer o chão melhor. Também resolveram descansar e claro, escolheram o lugar mais próximo de nós. O medo dos nossos amigos era de que em uma ligação destes garis, a polícia secreta poderia vir, encontrá-los com dois extrangeiros e leva-los para uma temporada no xadrez, coisa que já aconteceu com alguns deles.

Acabamos nos despedindo cedo deste grupo, teríamos que seguir viagem no dia seguinte, o destino desta vez seria Aman, onde um grupo de brasileiros nos esperava com um churrasco.

*Nome alterado para evitar rolos com o governo Sírio.